Diagnóstico
diferencial entre fobia social e transtorno
dismórfico corporal
Mariangela
Gentil Savoia1
Resumo
Este
artigo relata, a partir de uma perspectiva
histórica, as características diagnósticas
do transtorno dismórfico corporal que se sobrepõem
em alguns aspectos à fobia social. Esses aspectos
são comentados e apresentadas sugestões de
diferenciação diagnóstica. A comparação se
estende ao tratamento de ambos os transtornos,
que também mantêm características comuns.
Unitermos:
Transtorno dismórfico corporal; Diagnóstico
diferencial; Tratamento; Fobia social.
Abstract
Differential
diagnosis between social phobia and dismorphic
disorder
This
paper describes the diagnostic features of
body dismorphic disorder from a historic perspective.
Some aspects of these features overlap those
of Social Phobia to a certain extend. Such
aspects are discussed and suggestions for
diagnostics differences are made. The treatment
of both disorders has been compared, again
taking into consideration similar aspects.
Keywords:
Body dismorphic disorder; Treatment; Social
phobia; Diagnostic.
Introdução
Dos
transtornos psiquiátricos, o que mais se assemelha
em critérios diagnósticos com a fobia social
é o transtorno dismórfico corporal (TDC).
Em ambos, os pacientes apresentam ansiedade
social elevada, esquiva de situações sociais
e medo de crítica e comentários adversos sobre
sua aparência. Isolamento social e falta de
habilidade social geralmente estão presentes
nos dois casos.
Transtorno
dismórfico corporal é um novo nome para uma
velho transtorno. Segundo Warwick (1996),
tem sido descrito nas literaturas européia
e japonesa por uma variedade de nomes, sendo
o mais comum dismorfofobia, termo utilizado
por Morselli pela primeira vez há 100 anos
(1886). Embora esse termo seja usado de diferentes
maneiras, é definido como um sentimento de
feiúra ou defeito físico que o paciente percebe
a despeito de sua aparência normal. O termo
dismorfia é uma palavra grega que significa
feiúra, especialmente na face. A primeira
referência aparece na história de Herodutus,
no mito da garota feia de Esparta, que era
levada por sua enfermeira, todos os dias,
ao templo para se livrar da sua falta de beleza
e atrativos.
Temos
a classificação de Kraeplin, em 1909, como
uma neurose compulsiva; de Janet, em 1903,
como obsessão com a vergonha do corpo, enfatizando
a extrema vergonha dos indivíduos que se sentiam
feios e ridículos; de Jahrreiss, em 1930,
como hipocondria da beleza, e de Stekel, 1949,
que escreveu sobre um grupo peculiar de idéias
obsessivas que as pessoas apresentam a respeito
de seu próprio corpo.
Embora
sua presença seja clara na literatura européia,
a dismorfofobia não apresenta na CID - Classificação
Internacional de Doenças (1993) -, uma categoria
nosológica, estando inclusa na categoria da
hipocondria. Na classificação psiquiátrica
americana, é encontrada primeiramente no DSM-III,
Diagnostic Statistic Manual of Mental Disorders
- Third Edition (1980), como um exemplo de
transtorno somatoforme sem nenhum critério
diagnóstico, vindo este apenas no DSM-III-R,
Diagnostic Statistic Manual of Mental Disorders
- Third Edition Revised (1987).
O
transtorno dismórfico corporal é caracterizado
pela preocupação com um imaginado defeito
na aparência. Se uma ligeira anomalia física
está presente, a preocupação do indivíduo
é acentuadamente excessiva. A preocupação
causa sofrimento clinicamente significativo
ou prejuízo no funcionamento social ou ocupacional
ou em outras áreas importantes da vida do
indivíduo, DSM-IV, Diagnostic Statistic Manual
of Mental Disorders - Fourth Edition (1994).
As
queixas envolvem, em geral, falhas imaginárias
ou leves na face ou na cabeça, como acne,
cicatrizes, rugas, inchaço, assimetria ou
pêlos faciais excessivos. Outras preocupações
comuns incluem tamanho, forma ou algum outro
aspecto do nariz, da boca, dos olhos, das
pálpebras, das sobrancelhas, das orelhas,
da boca, dos dentes, da mandíbula, do queixo,
das bochechas ou da cabeça. Entretanto, qualquer
outra parte do corpo pode ser o foco de preocupação
- por exemplo, genitais, abdômen, nádegas,
quadris, ombros. A preocupação pode se concentrar
simultaneamente em diversas partes do corpo.
Embora a queixa seja freqüentemente específica,
pode ser, por vezes, vaga, e alguns indivíduos
evitam descrever os seus defeitos em detalhes
podendo se referir à sua "feiúra"
em geral.
Os
indivíduos com esse transtorno freqüentemente
pensam que os outros estão observando o seu
"defeito", o que pode levar a uma
esquiva das situações sociais que, levada
ao extremo, chega até ao isolamento social.
Esses pacientes com freqüência buscam e recebem
tratamentos médicos gerais, dentários ou cirúrgicos
para a correção de seus defeitos imaginários,
em uma peregrinação por diversos profissionais,
principalmente cirurgiões plásticos, sem,
no entanto, corrigir os supostos defeitos.
Embora
existam poucos estudos sobre a prevalência
desse transtorno, a literatura indica que
parece ser mais comum do que se supunha. Preocupações
culturais acerca da aparência física e da
importância da apresentação física adequada
podem influenciar ou ampliar preocupações
acerca da imaginada deformidade física. Evidências
preliminares sugerem que o transtorno dismórfico
corporal seja diagnosticado com freqüência
aproximadamente igual em homens e mulheres
(Warnick, 1996). O período da primeira manifestação
é, em geral, do início da adolescência até
a idade de 20 anos, aproximadamente.
A
freqüência de comorbidade do transtorno dismórfico
corporal com outros transtornos é desconhecida,
embora possa estar associada com transtornos
depressivo, delirante, fobia social e obsessivo-compulsivo.
Alguns autores têm sugerido que certos transtornos
de personalidade predispõem ao transtorno
dismórfico corporal, como esquizóide, narcisista,
obsessivo-compulsivo e evitador. Quanto à
história familiar, não existem dados que estabeleçam
um padrão familiar claro do transtorno dismórfico
corporal com outros transtornos psiquiátricos.
Alguns
comportamentos são comuns aos pacientes com
esse transtorno: verificação, olhar-se no
espelho ou outras superfícies refletoras para
checar a aparência, o que pode consumir muitas
horas por dia e ser extremamente difícil de
resistir. Alguns pacientes esquivam-se de
espelhos em uma tentativa não bem sucedida
de diminuir o desconforto e a preocupação.
Por terem a certeza de que os outros estão
olhando, falando sobre os seus defeitos, comumente
tentam camuflá-los com maquiagem, chapéu,
luvas, roupas. Freqüentemente, comparam a
sua parte feia do corpo com a dos outros.
Isolamento social, introversão, baixa auto-estima
podem também coexistir. Alguns relatos sugerem
que sem tratamento o transtorno usualmente
persiste por anos e algumas vezes por toda
a vida.
A
literatura consistentemente enfatiza o sofrimento
que pode ser causado por esse transtorno.
Dificuldades sociais e conjugais podem ocorrer
como resultado do TDC, a ponto da vida do
paciente ficar profundamente desestruturada.
O prejuízo funcional pode ser resultado do
tempo que alguns pacientes dispendem com suas
preocupações, negligenciando outros aspectos
da sua vida. O desconforto pode ser tão intenso
que pode vir a causar ideação suicida. Uma
complicação específica é a busca por cirurgia
plástica e outros procedimentos médicos, raramente
os pacientes ficam satisfeitos com o resultado.
DIAGNÓSTICO
DIFERENCIAL
O
clínico deverá, inicialmente, diferenciar
o TDC das preocupações normais com a aparência.
O TDC inclui insatisfação, preocupação e exagero
do defeito percebido, uma deterioração significativa
no desempenho ocupacional ou social e ansiedade
acentuada.
Alguns
autores sugerem ser o TDC uma manifestação
de transtorno obsessivo-compulsivo, pois os
pacientes estão constantemente obcecados com
sua aparência física e se olham compulsivamente
no espelho para verificar se o defeito ainda
está presente. Já outros autores tem questionado
se a anorexia não deveria ser incluída no
TDC, já que os indivíduos supervalorizam o
seu tamanho corporal, se angustiam com seu
defeito percebido e evitam situações provocadoras
dessa ansiedade.
Um
transtorno ansioso que pode se sobrepor ao
TDC é a fobia social, com relação à descrição
do comportamento e dos procedimentos de tratamento.
Embora exista essa sobreposição, podemos diferenciá-los,
pois os pacientes de TDC estão mais preocupados
com sua aparência e a possível feiúra que
os outros possam estar percebendo, e os pacientes
com fobia social com medo de avaliação de
desempenho ou de serem inadequados em situações
sociais.
Quanto
ao tratamento, para ambos são indicados os
procedimentos de dessensibilização sistemática,
exposição ao vivo das situações sociais evitadas,
prevenção de resposta, procurando garantir
que o paciente não manifeste comportamentos
de esquiva, e terapia cognitiva por meio da
modificação dos pensamentos disfuncionais.
Embora
os procedimentos sejam os mesmos, existem
especificidades para o TDC. As incertezas
sobre a etiologia são refletidas na diversidade
de seu tratamento que inclui medicação, psicoterapia
e cirurgia plástica. Pacientes com TDC procuram
ajuda psicológica quando experimentam sintomas
de depressão, auto-estima diminuída, isolamento
social e, obsessões e compulsões. Neziroglu
(1993) apresentou um programa de exposição,
no qual a construção da hierarquia usualmente
deve levar em conta as seguintes variáveis:
familiaridade das pessoas em volta do paciente
durante a exposição, número de pessoas em
volta, dia ou noite, e distância da parte
do corpo exposta aos outros. Ao mesmo tempo
que o paciente está em um programa de exposição,
deve-se incluir a prevenção de respostas,
ou seja, garantir que o paciente não se manifeste
em esquivas fóbicas, como maquiagem excessiva,
por exemplo. A terapia comportamental tem
inserido confrontação audiovisual como um
dos procedimentos.
A
terapia cognitiva deve incluir modificação
de pensamentos negativos e distorcidos e de
crenças irracionais sobre aparência física.
Ao estudarem correção de imagem corporal utilizando
terapia cognitiva, Rosen et al. (1989, 1990)
propõem discussões sobre a imagem corporal,
como ela se desenvolve e seu efeito sobre
a auto-estima e outros aspectos sobre o funcionamento
comportamental e psicológico.
Embora,
como dissemos a princípio, esse transtorno
denominado dismorfofobia por Morselli, em
1886, há mais de cem anos, ainda carece de
estudos. Com relação à etiologia, não há informações
sobre os desencadeantes biopsicossociais.
O diagnóstico diferencial de TDC, principalmente
com relação a TOC e fobia social, ainda encontra
pontos de sobreposição que precisam ser esclarecidos.
Até que ponto TDC é um subtipo de um ou de
outro transtorno?
Essas
são questões a serem respondidas em investigações
futuras.
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Manual of Mental Disorders, 3 ed.,
Washington, 1980.
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In: Caballo, V.E.; Buella Casal, G.; Carrobles,
C. (orgs.), Manual de Psicopatologia y
transtornos Psiquiátricos.
Siglo Ventiuno Editores de España, 1995.
1
Doutora em Psicologia pela USP - Pesquisadora
e supervisora do AMBAN - Professora da Universidade
São Marcos.
Ambulatório de Ansiedade (AMBAN) - Instituto
de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da
Universidade de São Paulo (USP).
Endereço para correspondência: Rua Dr. Ovídio
Pires de Campos, s/n - São Paulo, SP - CEP
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