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Tratamento combinado do transtorno de pânico farmacológico e psicoterápico
Mariangela Gentil Savoia

Recebido: 20/11/2000/Aceito: 28/11/2000

Resumo
O tratamento combinado para o transtorno de pânico tem sido considerado o mais eficaz por unir as vantagens do tratamento farmacológico, que suprime os ataques de pânico rapidamente, e do tratamento cognitivo-comportamental, que promove gradualmente a aquisição de repertórios eficazes de enfrentamento à ansiedade e ao pânico. Neste artigo é apresentado o processo cognitivo comportamental no tratamento do transtorno de pânico e também são discutidos os efeitos adversos do tratamento combinado.
Unitermos: Transtorno de pânico; Terapia cognitivo-comportamental; Tratamento combinado.
Abstract
Combined pharmacological and psycotherapic treatment in panic disorder
Combined treatments for patients with panic disorder have been considered better than single treatments, because pharmacologic interventions stop or reduce the frequency of panic attacks and cognitive behavior therapy gradually builds the repertoire for coping with anxiety and panic. This paper presents the process of cognitive behavioral in the treatment of panic disorder. The adverse effects of combined treatment are also discussed.
Keywords: Panic disorder; Cognitive behavior therapy; Combined treatment.

Os ataques de pânico incluem componentes cognitivos, autonômicos e comportamentais. Os fatores psicológicos têm sido vistos como mediadores importantes nas mudanças fisiológicas e vice-versa, o que implica a categorização desse transtorno, por alguns autores, como um transtorno biopsicossocial (Hallam, 1985; Shear, 1988). Diante disso, o planejamento terapêutico desenvolve-se por meio da farmacoterapia unida à psicoterapia. Esse tratamento tem sido considerado mais eficaz para o transtorno de pânico que um tratamento isolado.

O tratamento farmacológico será objeto de estudo e investigação de muitos textos compilados para esta revista, portanto irei me ater aos aspectos da psicoterapia no tratamento do pânico.

Entre as abordagens psicoterápicas, a terapia cognitivo-comportamental (TCC) tem sido reconhecida e enfatizada como a mais adequada e eficaz para o tratamento desse transtorno. Na Conferência Internacional de Genebra, em 1990, a TCC foi considerada o tratamento psicológico mais adequado para o transtorno de pânico (Gelder, 1990; Burrows, 1990; Hand, 1990; Michels, 1990; Mavissakalian,1990).

Em 1998, a American Psychiatric Association apresentou os resultados de 12 estudos controlados de terapia cognitivo-comportamental para pacientes com pânico, nos quais constatou que a TCC apresenta um índice de melhora de 78% comparada com a lista de espera, que obteve um índice de 26%, relaxamento 56% e placebo 33%.

O modelo cognitivo-comportamental descreve a ansiedade como decorrente de controle aversivo, com respostas de fuga e esquiva, que tem por objetivo evitar ou adiar os estímulos aversivos (Eysenck,1977), como, por exemplo, um animal que bate na barra para evitar o choque, ou uma adolescente que dorme na casa de uma amiga para evitar a bronca por chegar tarde. A crise de pânico, dentro desse modelo, é um estímulo que, pareado com um evento neutro (por exemplo, situação, local ou pessoa), desenvolve uma associação pavloviana em que esses outros estímulos passam a ser evitados. As cognições podem vir a ter controle do comportamento ansioso, em geral pela ansiedade antecipatória, na qual há, segundo Gorenstein et al. (1994), inibição do comportamento motor, hiperatividade autonômica e aumento de atenção e alerta.

Segundo essa abordagem, os procedimentos utilizados para o tratamento do transtorno de pânico consistem em:

Avaliação – Identificação dos problemas e objetivos terapêuticos. Esta fase tem importância primordial, pois o tratamento e os procedimentos a serem empregados dependem do levantamento feito nesse momento. Precisamos identificar as respostas de evitação, que são comportamentos aprendidos pelo condicionamento pavloviano. As situações associadas ao ataque de pânico passam a eliciar respostas de esquiva. Por exemplo, o paciente que teve um ataque de pânico em um banco ou supermercado passa a evitar esses lugares com medo de ter um novo ataque. Esses estímulos condicionados adquirem propriedades aversivas e a exposição é o procedimento de extinção dessas respostas.

Assim, é necessária a identificação dos desencadeantes internos e externos e eventuais ganhos secundários com o transtorno. É feita a análise funcional e utilizados os procedimentos de automonitoria e auto-observação.

Técnicas usualmente empregadas

1. Informação

Deve-se explicar ao paciente a natureza do transtorno e qual o objetivo do tratamento. Uma das técnicas utilizada é a biblioterapia, que consiste em indicação de leitura sobre o problema, para que o paciente tenha esclarecimento do transtorno que apresenta. Deve-se também discutir a leitura com o paciente e não apenas indicar o texto. A informação costuma ter como conseqüência alívio de ansiedade, engajamento no tratamento e fortalecimento da relação terapêutica.

2. Exposição ao vivo

O procedimento de exposição ao vivo é indicado aos pacientes que, no processo de avaliação, apresentam situações de esquiva fóbica. Esse procedimento consiste na construção de uma lista de situações eliciadoras de ansiedade fóbica, elaborada pelo terapeuta e pelo cliente em colaboração. O paciente, em seguida, irá fazer uma confrontação progressiva, sistemática e por tempo prolongado das situações temidas. Esta exposição pode ser feita gradual ou não. Quando gradual, deve-se trabalhar da situação que elicia menos ansiedade para a mais ansiogênica. A exposição deve ser prolongada e deve durar até que a ansiedade cesse ou diminua de maneira significativa. Deve, ainda, ser realizada sistematicamente e avaliada continuamente. Em alguns casos, pode ser útil a utilização de acompanhante terapêutico.

O processo de exposição tem como resultado a habituação do paciente às situações temidas. Neste procedimento, a ansiedade aumenta até determinado nível, quando o paciente se expõe às situações evitadas, que se mantêm em um platô e, após certo período de tempo, diminui a intensidade, como podemos ver na figura 1. Em geral, na segunda sessão de exposição, a ansiedade se inicia em um nível inferior ao da primeira e assim sucessivamente.
 

Figura 1 Curva de habituação

3. Exposição interoceptiva

As interpretações catastróficas dos sintomas de ansiedade podem desencadear um ataque de pânico. O medo de passar mal, de ter um ataque de pânico, pode levar o paciente a prestar atenção exagerada aos seus sintomas físicos. Por exemplo, ao fazer uma corrida, após o esforço físico, a pessoa tem uma respiração ofegante e o batimento cardíaco acelerado e, por meio de interpretação catastrófica, atribui a esses sintomas o início de um ataque de pânico. Devido ao aumento de ansiedade, esse ataque pode vir a ocorrer. Aos pacientes que apresentam esse padrão, deve ser indicada a exposição interoceptiva. Esse procedimento consiste em provocar sintomas físicos presentes na ansiedade por outros meios. O objetivo é que haja dissociação das sensações fisiológicas com a crise de pânico, ou seja, que o paciente aprenda a discriminar os momentos em que os sintomas físicos são decorrentes da ansiedade ou de outros estímulos.

4. Manejo de estresse

A literatura tem demonstrado uma associação freqüente entre eventos vitais (life events) e a primeira manifestação de pânico. Savoia (1995) encontra que essa associação está presente nas dificuldades de enfrentamento apresentadas pelos pacientes com transtorno do pânico diante desses eventos, e também pelo significado que atribuem a eles e não pelo número de ocorrências. O DSM-IV (Diagnostic Statistic Manual of Mental Disorders – Fourth Edition) (1994) apresenta a perda de suporte social como um dos fatores importantes no pânico, único fator, aliás, encontrado no estudo acima referido. A ênfase recente, portanto, tem sido na vulnerabilidade ao estresse e não aos eventos estressantes em si.

A vulnerabilidade às situações de estresse nos pacientes com pânico tem sido demonstrada por Shear (1988) e Bennet e Stirling (1998). Essas situações provocam um aumento de ansiedade que pode culminar em um ataque de pânico. Assim, torna-se primordial ensinar aos pacientes técnicas de manejo de estresse, tais como, organização de tempo, tomada de decisão, modificação da interpretação dos estressores (muitas vezes catastrófica), treino de habilidades sociais e relaxamento.

O terapeuta, ao ensinar ao paciente técnicas de manejo de estresse, denominadas estratégias de enfrentamento (coping), está desenvolvendo e implementando um repertório apropriado de expressão da resposta ao estresse. É importante identificar as estratégias comumente utilizadas para modificá-las, além de treinar a utilização de estratégias mais adequadas e eficazes.

5. Técnicas cognitivas

Os pacientes com transtorno de pânico, em geral, avaliam negativamente os eventos que ocorrerão no futuro próximo, apresentando uma ansiedade antecipatória. Por exemplo, penam ou imaginam que terão um ataque de pânico na próxima saída de casa, o que fará com que cada vez mais não saiam de casa, ou se saírem, busquem sempre a companhia de alguém. Para a modificação desses pensamentos disfuncionais, utiliza-se a reestruturação cognitiva, que consiste na identificação dos pensamentos ansiogênicos, análise da lógica inadequada, testes de realidade e modificação de idéias errôneas sobre ansiedade (Beck et al., 1985).

Tratamento combinado

As estratégias que combinam procedimentos farmacológicos com terapia cognitivo-comportamental são consideradas as mais eficazes no tratamento do transtorno pela maioria dos pesquisadores, como Tyrer et al. (1988), que compararam os tratamentos isoladamente e em combinação, e Lader e Bond (1998), em uma revisão sobre a interação entre os tratamentos farmacológicos e psicológicos da ansiedade.

As intercorrências que podem existir no tratamento combinado costumam interferir na aderência ao tratamento e precisam ser avaliadas e trabalhadas com o paciente. É comum os pacientes atribuírem seus progressos à medicação, diminuindo a percepção da eficácia da psicoterapia. Pode ocorrer, também, interferência dos efeitos colaterais dos medicamentos no processo terapêutico como, por exemplo, a diminuição do desejo sexual. A integração da equipe multidisciplinar é um cuidado importante no tratamento combinado, para que haja uma sintonia quando se aplica uma ou outra técnica ou se prescreve um ou outro medicamento. Por exemplo, a exposição não é eficaz quando se utiliza benzodiazepínicos, pois o paciente não sente ansiedade, condição necessária para esse procedimento.

Conclusão

O tratamento combinado tem se mostrado o melhor ao considerarmos que o tratamento farmacológico suprime os ataques de pânico rapidamente e o tratamento cognitivo-comportamental introduz gradualmente a aquisição de repertórios eficazes de enfrentamento à ansiedade e ao pânico.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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American Psychiatric Association – Practice Guideline for the Treatment of Patients with Panic Disorders. Am J Psych 155 (suppl.): 1-34, 1998.
Beck, A.T.; Emery, G.; Greenberg, R. – Anxiety disorders and phobias. New York, Basic Books, Inc. Publishers, 1985.
Bennet, A.; Stirling, J. – Vulnerability factors in the anxiety disorders. Br J Med Psychol 71: 311-21, 1998.
Burrows,G.D. – Long-term drug treatment of anxiety disorders. J Psych Res 24 (suppl. 1): 45, 1990.
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Gorenstein, C.; Bernik, M.A.; Gentil, V. – Bases biológicas da ansiedade, In: Gentil,V.; Lotufo Neto, F. Pânico, fobias e obsessões: a experiência do projeto AMBAN (eds.): Cap 4, p. 58-72, EDUSP, São Paulo, 1994.
Hallam, R.S. – Anxiety – psychological perspectives on panic and agoraphobia. Academic Press, London, 1985.
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Tyrer, P.; Murphy, S.; Kingdon, D.; Brothwell, J.; Gregory, S.; Seivewright, N.; Ferguson, B.; Barczak, P.; Darlin, C.; Johnson, A. – The Nottingham study of neurotic disorder: comparision of drug and psychological treatments. Lancet 30: 235-40, 1988.

1Doutora em Psicologia pela USP, Pesquisadora e supervisora do AMBAN e Professora da Universidade São Marcos.
Ambulatório de Ansiedade (AMBAN), Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (Ipq-HC) da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).
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