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Tratamento do transtorno de pânico com antidepressivos tricíclicos
Renato T. Ramos1

Recebido: 20/11/2000/Aceito: 28/11/2000
Resumo
O artigo revê alguns pontos sobre o tratamento do transtorno de pânico com antidepressivos tricíclicos. As indicações, vantagens e desvantagens desse grupo de medicamentos são revistas com especial atenção ao fenômeno da piora inicial e seu manejo clínico.
Unitermos: Pânico; Antidepressivos tricíclicos; Tratamento farmacológico.
Abstract
Use of tricyclic antidepressants in the treatment of panic disorder
This article briefly reviews the main indications, advantages and limitations of treating panic disorder with tricyclic antidepressants. Special attention is paid to the clinical management of initial worsening and to long-term drug maintenance strategies.
Keywords: Panic; Tricyclic antidepressants; Pharmacological treatment.


Introdução

A idéia de que o transtorno de pânico pudesse ser considerado uma entidade nosológica distinta nasceu da observação dos efeitos de antidepressivos tricíclicos em um determinado grupo de pacientes. Em 1962, Klein e Fink descreveram, pela primeira vez, o efeito terapêutico da imipramina em pacientes extremamente ansiosos, com diversas queixas somáticas e que demandavam constante atenção médica. O quadro clínico desses pacientes correspondia ao que hoje chamamos de transtorno de pânico com ou sem agorafobia.

Dessa forma, a imipramina tornou-se a primeira medicação usada para o tratamento do pânico e, desde então, inúmeros estudos têm demonstrado a eficácia de diversos antidepressivos no tratamento desse transtorno. Em um primeiro estudo controlado, usando placebo, Klein (1964) tratou 13 pacientes agorafóbicos com doses iniciais de 75 mg/dia e máximas de 300 mg/dia de imipramina. A imipramina mostrou-se superior ao placebo e esta resposta manteve-se estável em um seguimento de 24 meses.

Zitrin et al. (1980) estudaram 76 mulheres agorafóbicas tratadas com terapia de exposição em grupo. Esse tratamento era iniciado após 4 semanas de uso de imipramina (até 300 mg/dia) ou placebo, com o objetivo de suprimir os ataques de pânico antes do início da terapia comportamental. Os dois grupos mostraram uma melhora considerável, mas aqueles que receberam imipramina e exposição tiveram uma resposta superior quanto ao controle dos ataques de pânico e melhora da esquiva fóbica. Todos os pacientes apresentaram melhora progressiva ao longo de um seguimento de 26 semanas.

Conflitando com esses resultados, Marks et al. (1983), ao estudar um grupo de 45 pacientes agorafóbicos tratados com imipramina e exposição, placebo e exposição, imipramina e relaxamento, e placebo e relaxamento, não encontraram diferenças entre os grupos que receberam imipramina e exposição e placebo e exposição, embora os níveis séricos de imipramina tenham sido considerados terapêuticos. Esses resultados levaram os autores a postularem que a imipramina agiria tratando sintomas depressivos, presentes nesses pacientes, sem apresentar uma ação especificamente antipânico ou antifóbica.

Em estudos posteriores, a imipramina mostrou-se capaz de bloquear os ataques de pânico e melhorar o estado geral de pacientes agorafóbicos sem sintomas depressivos detectáveis, mesmo quando qualquer forma de apoio psicoterapêutico tivesse sido ativamente evitada. Mavissakalian e Perel (1989) encontraram ainda uma correlação entre os níveis séricos de imipramina, mas não de desmetilimipramina, e a resposta terapêutica.

Atualmente, a eficácia da imipramina no controle dos ataques de pânico é largamente aceita, sendo considerada, ainda hoje, a droga de referência para comparação de outros medicamentos.

O uso da clomipramina no pânico data do início da década de 1980. Diferentemente da imipramina, a clomipramina tem uma ação potente sobre neurônios serotoninérgicos, embora seu principal metabólito, a desmetilclomipramina, atue também sobre estruturas noradrenérgicas.

Confirmando relatos anteriores, Gentil (1985) e Kahn et al. (1987) relataram a eficácia da clomipramina no tratamento dos ataques de pânico, em geral com doses inferiores a da imipramina. Gloger et al. (1981), por exemplo, relataram que 50% de seus pacientes melhoraram com doses de 50 mg/dia ou menos.

Esses achados foram ainda corroborados por estudos abertos e duplo-cegos controlados. No entanto, até recentemente, a comparação direta entre imipramina e clomipramina havia sido feita apenas por Modigh et al. (1992).

Em um estudo realizado no Ambulatório de Ansiedade (AMBAN), Gentil et al. (1993) usaram, pela primeira vez, a propantelina como "placebo ativo", ou seja, capaz de reproduzir os efeitos anticolinérgicos dos antidepressivos tricíclicos e garantir o caráter cego do estudo. Cápsulas contendo 10 mg de clomipramina, 25 mg de imipramina e 15 mg de propantelina foram prescritas, de forma livre, até 8 cápsulas por dia. As doses médias finais observadas foram de 50 mg/dia de clomipramina e 115 mg/dia de imipramina. Ambas as drogas foram mais eficazes na supressão dos ataques de pânico do que o placebo.

Em uma recente revisão sobre a eficácia da clomipramina no tratamento do transtorno de pânico, Sheehan e Sheehan (1996) encontraram um efeito terapêutico demonstrável em 11 de 12 estudos clínicos, 6 dos quais estudos duplo-cegos controlados com placebo. Além de claramente superior ao placebo, a clomipramina mostrou-se equivalente a diversos inibidores seletivos da recaptura de serotonina, como fluvoxamina (Den Boer et al., 1987), lofepramina (Fahy et al., 1992), paroxetina e citalopram (Sheehan e Sheehan, 1996).

A clomipramina, portanto, parece ser tão eficiente quanto a imipramina, atuando, porém, em doses menores. Além disso, a clomipramina não parece trazer prejuízos aos desempenhos cognitivo e psicomotor (Marcourakis et al. 1993). Esses achados levaram posteriormente às hipóteses serotoninérgicas para o transtorno de pânico.

O tratamento inicial com tricíclicos

Um dos principais problemas ao se iniciar o tratamento do transtorno de pânico com antidepressivos é a ocorrência de uma piora clínica inicial observada em cerca de 30% dos pacientes (Ramos, 1995).

Essa piora inicial pode-se constituir no surgimento de sintomas estimulatórios inespecíficos, como inquietação, insônia, irritabilidade e sensação de excesso de energia. Este padrão de sintomas, chamado de jitteriness syndrome (Pohl et al., 1988), parece estar associado a drogas como imipramina, desipramina, nortriptilina e amitriptilina, de ação eminentemente noradrenérgica. Em contraste, uma piora inicial da freqüência e da intensidade dos ataques de pânico previamente existentes tem sido consistentemente associada ao uso da clomipramina (Ramos et al., 1993).

A piora inicial é um fenômeno transitório, durando de 5 a 7 dias, quando o tratamento é feito com doses iniciais de 10 mg por dia de clomipramina, não trazendo riscos adicionais para o paciente, nem significando um fator de mau prognóstico para o tratamento. Embora não seja possível prever quais pacientes virão a apresentar esse tipo de intolerância, existem evidências de que a presença de tontura durante os ataques de pânico constituam um fator de risco para a piora inicial (Ramos et al., 1996).

Não foram ainda testadas formas específicas de tratamento para a piora inicial. Avisar previamente o paciente sobre a possibilidade de piorar com as primeiras doses de medicação e permanecer disponível para eventuais contatos parecem ser as atitudes ideais para se evitar o abandono do tratamento. O uso eventual de benzodiazepínicos, como o alprazolam ou o clonazepam, também pode ser útil em certas situações. Dados recentes sugerem ainda que iniciar o tratamento com doses pequenas de clomipramina e aumentá-las rapidamente, além de não aumentar a incidência de piora inicial, reduz a duração desta (Ramos, 1995).

Conclusões

Antidepressivos tricíclicos são altamente eficazes no tratamento dos ataques de pânico e também da esquiva fóbica, constituindo-se, até hoje, em importante opção terapêutica. No entanto, existem evidências de que o transtorno de pânico seja um distúrbio crônico com poucas remissões espontâneas, exigindo estratégias de tratamento a longo prazo.

O objetivo do tratamento deve ser a remissão completa dos ataques de pânico, pelo ajuste adequado da dose, mas efeitos colaterais, como anorgasmia, retardo ejaculatório, sudorese, hipotensão postural, obstipação, retenção urinária, boca seca e ganho de peso, muitas vezes tornam-se um grave empecilho para a manutenção dos antidepressivos tricíclicos.



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1Chefe da Unidade de Internação Feminina do Instituto de Psiquiatria e Pesquisador do Laboratório de Psicopatologia Experimental e Psicofarmacologia (LIM-23). Instituto de Psiquiatria HCFMUSP.
Endereço para correspondência:

Instituto de Psiquiatria, Hospital das Clínicas FMUSP
Rua Ovídio Pires de Campos, s/n – São Paulo, SP – CEP 05403-010

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