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Transtorno de pânico

A idéia de publicar esta edição especial da Revista de Psiquiatria Clínica surgiu após o evento "Transtorno de Pânico na Prática Médica", realizado em 1998 pelo Ambulatório de Ansiedade do Instituto de Psiquiatria do HCFMUSP.
O transtorno de pânico é talvez o melhor exemplo das mudanças ocorridas no entendimento dos transtornos mentais nos últimos vinte anos, especialmente marcantes na área dos "transtornos neuróticos", quando se buscou agrupar os quadros por similaridades descritivas e não por princípios teóricos de fundamentação duvidosa. A partir dessa nova nosografia, mais empírica, pôde-se estudar de forma mais objetiva os transtornos ansiosos, um dos problemas médicos com maior impacto sobre a qualidade de vida da população. Mais ainda, embora estime-se que menos de 40% dos acometidos procurem tratamento em qualquer ano-índice e que não existam remissões espontâneas duradouras, há formas disponíveis de tratamento eficazes e seguras.
Esperamos, com esta edição especial, sintetizar informações atualizadas que possam ser úteis para médicos psiquiatras, generalistas e outros profissionais de saúde mental envolvidos no tratamento de pacientes com transtorno de pânico.
Márcio Bernik
Doutor em Medicina, Médico-assistente, Coordenador do Ambulatório de Ansiedade do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).
Vera Tess
Mestre em Medicina, Médica-assistente, Pesquisadora do Ambulatório de Ansiedade do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).

Relevância médico-social do transtorno de pânico
Márcio Bernik1

Recebido: 20/11/2000/Aceito: 28/11/2000
Resumo
O aumento do interesse nos aspectos epidemiológicos, sociais e econômicos dos transtornos mentais associa-se à preocupação com os custos crescentes dos serviços médicos. Sabe-se hoje que os transtornos ansiosos têm prevalência muito maior do que se pensava. Apesar das diferenças metodológicas e culturais, estudos realizados na Europa, EUA e Brasil são confluentes em apontar os transtornos ansiosos e fóbicos como o principal problema de saúde mental da população. O transtorno de pânico, por incidir em uma população jovem, está entre os transtornos mentais que se estendem por um maior número de anos de morbidade.
Unitermos: Transtorno de pânico; Epidemiologia; Transtornos de ansiedade.
Abstract
Medical and social impact of panic disorder
The awareness of the epidemiology of anxiety disorders has increased along with recent concerns regarding the increasing costs of health care. Recent studies have shown that anxiety disorders have a much higher prevalence in the population than earlier assumed. Despite methodological and cultural differences, European, North America and Brazilian studies have shown that anxiety and phobic disorders are the most common mental health conditions. Among them, panic disorder has an early onset, causing greater disability over the years.
Keywords: Panic disorder; Epidemiology; Anxiety disorders.

Introdução

Existe um aumento do interesse nos aspectos epidemiológicos, sociais e econômicos dos transtornos mentais e, entre esses, dos transtornos ansiosos. Contribuem para isso o crescimento da epidemiologia médica como ciência, a preocupação com doenças com alto grau de morbidade e cronificação (como os transtornos mentais), o aumento do acesso à saúde pela população e a conseqüente preocupação com os custos crescentes dos serviços médicos.

Ao se confirmarem os estudos epidemiológicos mais recentes, os transtornos ansiosos têm prevalência muito maior do que se pensava. Sabe-se hoje que a prevalência das doenças mentais é similar à dos distúrbios cardiovasculares, inclusive da hipertensão. Entre elas, os transtornos ansiosos são os mais freqüentes e, ainda, por incidir em uma população mais jovem, os transtornos ansiosos levam a um tempo maior de morbidade.

Prevalência do transtorno de pânico

Estudos anteriores à utilização de critérios diagnósticos da terceira edição do Manual de Diagnóstico e Estatística (DSM-III, APA, 1980) não forneciam dados sobre a prevalência do transtorno de pânico, porém, em uma revisão de estudos europeus realizados entre 1943 e 1966, Marks e Lader (1973) estimaram uma prevalência para "neurose de angústia" entre 2% e 4,7%, sendo mais comuns em mulheres e jovens.

Estudos publicados a partir da década de 80 forneceram informações com dados compatíveis à nosologia do DSM-III (APA, 1980) sobre a prevalência do transtorno de pânico e da agorafobia:
1) O estudo "1979 National Survey of Psychiatric Drug Use" (Uhlenhuth et al., 1983) utilizou questionários de auto-avaliação.
2) O estudo ECA "NIMH Epidemiologic Catchment Area Study", realizado a partir de 1982, avaliou 18.500 adultos em cinco comunidades americanas, em duas fases: a primeira, publicada em 1984, e a segunda, a partir de 1988 (Regier et al., 1988; Karno et al., 1988).
3) O estudo prospectivo de Zurique (Angst e Dobler-Mikola, 1985), com 6.293 adultos jovens.
4) O estudo de seguimento de Munique "Munich Follow-up Study" (Wittchen, 1986), avaliou uma população com idades de 25 a 63 anos, por períodos de até 8 anos, com metodologia similar ao ECA.
5) O "National Comorbidity Survey" (NCS; Kessler et al., 1994), que avaliou 8.098 indivíduos, investigou transtornos mentais e abuso de substâncias psicoativas.
O ECA estimou a prevalência geral de transtornos ansiosos em 8,9% para 6 meses e 14,6% ao longo da vida (ou 23%, se incluídos os diagnósticos de fobias específicas). Resultados semelhantes foram obtidos em Munique, com prevalências de 8,1% para 6 meses e 13,9% ao longo da vida. O estudo de Zurique estimou a prevalência de transtornos ansiosos em 12,1% ao longo da vida (excluídas fobias específicas). O NCS apresentou uma prevalência maior, de 24,9% de transtornos ansiosos. Esses dados colocam os transtornos de ansiedade como o grupo mais freqüente de transtornos mentais na população geral.

Em relação à prevalência do transtorno de pânico (TP), é importante ressaltar que os critérios do DSM-III para TP são bastante restritos, e a prevalência de ataques de pânico é três a seis vezes maior que a de transtorno de pânico (Von Korff, 1985). Deve-se, nesses casos, considerar juntamente a prevalência do diagnóstico de agorafobia, patologia considerada intimamente ligada ao curso natural do transtorno de pânico.

A prevalência em um determinado momento do TP parece ser de 0,4% a 2,3% com critérios DSM-III (períodos de 6 meses a 1 ano – tabela 1) e até 3,5% ao longo da vida. A pequena diferença entre a prevalência em períodos discretos de tempo e a prevalência ao longo da vida sugere uma tendência à cronicidade dessa condição médica.

Segundo os dados do ECA, a idade de início do transtorno de pânico se concentra entre os 15 e os 19 anos (Von Korff et al., 1985), sendo raros os casos que se iniciam após os 30 anos.

A agorafobia, com ou sem ataques de pânico, é o diagnóstico mais freqüente entre os fóbicos que procuram tratamento. Sua prevalência em 6 meses encontra-se entre 2,5% e 5,8%. A idade de início costuma ser maior que a do transtorno de pânico (com ataques de pânico espontâneos), por volta dos 25 anos (Weissman e Merikangas, 1986).

Variáveis demográficas e fatores de risco

A maioria dos estudos concorda que a prevalência de transtornos ansiosos é, em média, 2 vezes maior em mulheres que em homens (com variação entre 1,2:1 para o transtorno obsessivo compulsivo e 8:1 para agorafobia, na faixa de 25 a 34 anos; Regier et al., 1988; Weissman e Merikangas, 1986; tabela 2). No Brasil, essa mesma relação de prevalência entre homens e mulheres é observada (Almeida Filho et al., 1992; tabela 3).

Além do fator gênero, observa-se também uma maior prevalência de transtornos ansiosos nas faixas etárias mais jovens. Por outro lado, outros fatores sociodemográficos, como raça, educação e urbanização, não são fatores de risco tão importantes quanto o sexo e a idade. Entretanto, algumas pequenas diferenças são observadas, como o fato de o transtorno de pânico ser mais freqüente em moradores de áreas rurais, e a agorafobia, entre os não caucasianos.

Uso de sistemas de saúde e custo social

De acordo com o estudo ECA, somente 1 em cada 5 americanos portadores de transtornos ansiosos procura tratamento. Mesmo assim, como esses pacientes geralmente procuram profissionais não psiquiatras, os transtornos ansiosos são os quadros psicopatológicos mais encontrados em serviços primários de saúde.

Marks e Lader (1973) estimaram que eles são responsáveis por 13% de todos os pacientes com patologia psiquiátrica que procuram atendimento primário de saúde no Reino Unido.

O estudo de Almeida Filho et al. (1992) estimou para transtornos de ansiedade uma demanda de atendimento não suprida (potencial estimada) entre 4,3% e 16,4% da população, dependendo do sexo, faixa etária e cidade estudada. Para os transtornos fóbicos, a estimativa ficou entre 2,8% e 17,2%, indicando que, do ponto de vista de planejamento das necessidades de serviços de saúde mental, os transtornos ansiosos e fóbicos são o principal problema de saúde mental da população (urbana) brasileira.

Apesar das diferenças metodológicas (diferentes populações, localidades, critérios operacionais e instrumentos diagnósticos) e culturais entre estudos realizados na Europa, EUA e Brasil, os resultados são confluentes: apontam uma alta prevalência de transtornos ansiosos na população que busca serviços primários de saúde, sendo ainda maior a população que apresenta sintomatologia ansiosa, mas não preenche critérios operacionais para transtornos específicos (quadros subsindrômicos). Mais ainda, os transtornos ansiosos amplificam as queixas somáticas dos pacientes e aumentam a utilização e saturação dos sistemas de saúde para outras condições médicas associadas como, por exemplo, doenças cardiovasculares e pulmonares.

O alto custo social dos transtornos ansiosos não se limita apenas à demanda dessa população pelos sistemas de saúde. Devem-se acrescentar os custos indiretos, ou seja, aqueles decorrentes das conseqüências individuais nos casos não tratados.

Conclusão

Os transtornos ansiosos são os mais freqüentes transtornos emocionais na comunidade e nos sistemas primários de saúde. Sua importância foi subestimada durante muito tempo. Ainda hoje, a maioria dos novos casos não é reconhecida, diagnosticada ou tratada de forma apropriada. Além do grande sofrimento individual, os transtornos ansiosos representam um alto custo médico-social.



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1 Doutor em Medicina, Médico-assistente, Coordenador do Ambulatório de Ansiedade (AMBAN) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.
Endereço para correspondência: Ambulatório de Ansiedade do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP
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E-mail: bernikma@ax.apc.org

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