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Aspectos genéticos do transtorno de pânico
Guilherme Peres Messas1
Homero Pinto Vallada Filho2



Recebido: 20/11/2000/Aceito: 28/11/2000
Resumo
O artigo apresenta uma revisão sobre a genética do transtorno de pânico, passando inicialmente pelos estudos genético-epidemiológicos em famílias e gêmeos. Os resultados dessas pesquisas têm demonstrado a existência de um componente genético na vulnerabilidade ao transtorno. Em seguida, examinam-se as hipóteses para o mecanismo de transmissão genética e, por fim, discutem-se as estratégias moleculares.
Unitermos: Estudos genético-epidemiológicos; Genes de vulnerabilidade; Transtornos ansiosos.
Abstract
The genetics of panic disorder
This article presents an overview of genetic studies on panic disorder. It outlines the family and twin studies, which demonstrate a genetic component for the disease. The genetic model is examined as a susceptibility factor. The last part of the article includes a discussion on the molecular genetic approach to panic disorder.
Keywords: Genetic-epidemiologic studies; Susceptibility genes; Anxiety disorder.


Introdução

Os estudos genéticos vêm servindo a dois propósitos importantes na psiquiatria contemporânea: o refinamento das categorias diagnósticas e a exploração etiológica dos transtornos. Assim, estudos indicando uma transmissão hereditária de uma determinada síndrome favorecem a hipótese de ser esta uma entidade nosológica válida e distinta. É o caso, para os transtornos de ansiedade, da questão da agorafobia: seria esta uma entidade nosológica separada ou uma complicação do transtorno de pânico? Tal procedimento permitiu, para a doença maníaco-depressiva, não somente a demonstração de seu componente genético como também a validação da classificação que subdivide essas alterações do humor em transtorno bipolar e unipolar (Leonhard, 1957; Angst, 1966; Perris, 1966).

Por meio dos estudos genéticos (epidemiológicos e moleculares), também procura-se estabelecer a intensidade da herdabilidade de um transtorno (ou seja, quanto da sua gênese é devida ao meio ambiente e quanto aos genes), sua modalidade de transmissão e mecanismos fisiopatológicos envolvidos.

A estratégia da genética epidemiológica para investigar a herdabilidade de um transtorno percorre três etapas: os estudos em famílias, os estudos em gêmeos e os estudos de adoção. Na primeira delas investiga-se a agregação familiar do transtorno. Uma agregação positiva sugere a presença do fator genético e possibilita a determinação do tipo de padrão de transmissão desta. No entanto, os estudos em famílias são incapazes de discernir entre aquilo que é transmitido pelos genes e aquilo que é determinado pelo ambiente familiar compartilhado pelos membros de uma família. Para essa separação, fazem-se necessários os outros dois tipos de estudos.

Os estudos em gêmeos partem do princípio de que gêmeos monozigóticos (MZ) possuem 100% dos genes em comum, ao passo que gêmeos dizigóticos compartilham apenas 50%, estando ambos os casos submetidos a influências ambientais semelhantes. Desse modo, um transtorno determinado pelo ambiente tenderia a apresentar taxa de concordância próxima entre MZ e DZ, enquanto em patologias de origem genética a taxa de concordância entre MZ seria significativamente maior que DZ.

Por fim, os estudos de adoção permitem a análise separada da carga genética e do meio ambiente. Estudando filhos de pais biológicos com determinado transtorno, adotados por famílias em que o distúrbio esteja ausente, pode-se determinar com maior precisão a presença de um componente hereditário para o transtorno.

A partir da comprovação extraída da genética epidemiológica a respeito de um determinado transtorno, a genética molecular procura conhecer os genes envolvidos neste processo, por meio de técnicas de biologia molecular que experimentaram considerável avanço nos últimos anos. Passemos à apresentação desses estudos para o transtorno de pânico.

Estudos genético-epidemiológicos para transtorno de pânico

A reunião dos estudos em famílias para transtorno de pânico apresenta forte agregação familiar. Estudos recentes mostram uma prevalência de 13% de parentes de primeiro grau afetados contra 3,5% da população geral (Moran e Andrews, 1985; Noyes et al., 1986; Hopper et al., 1985; Mendlewicz et al., 1993; Weissman et al., 1993). Dois desses estudos (Noyes et al., 1986; Medlewicz et al., 1993), em que grupos-controles foram incluídos, encontraram diferença significativa entre os membros de famílias afetadas e os controles, comportando um risco aumentado em 3,7 vezes.

A associação entre agorafobia e transtorno de pânico também foi investigada em um dos estudos acima reunidos (Noyes et al., 1986). Os autores encontraram um risco de 7% de pânico e 9,4% de agorafobia em parentes de primeiro grau de agorafóbicos com pânico. Ao contrário, em parentes de afetados por pânico sem agorafobia o risco observado foi de 14,9% de pânico e 1,7% de agorafobia. Os dados indicam a transmissão conjunta, dentro de um mesmo espectro fenotípico, de agorafobia com transtorno de pânico.

Um estudo mais recente (Goldstein et al., 1997) investigou a agregação familiar para pânico de início precoce (até 20 anos), em relação ao quadro de início após os 20 anos. O risco encontrado para parentes de primeiro grau em relação ao grupo-controle foi de 17 vezes para o grupo de início até 20 anos e de 6 vezes para o grupo de início após 20 anos. Esses achados indicam a possibilidade da determinação do subgrupo de início até 20 anos como de maior influência genética, abrindo caminho para novos estudos genéticos na área.

MacKinnon et al. (1998) encontraram evidências, investigando 28 famílias, para uma transmissão hereditária conjunta entre transtorno de pânico e transtorno bipolar, constituindo um subgrupo específico desta última. A hipótese dos autores ainda aguarda confirmações em outras amostras.

Quatro estudos em gêmeos foram realizados até o presente momento nesse setor. Num estudo anterior à classificação atual dos distúrbios de ansiedade, Slater e Shields (1969) encontraram uma concordância de neurose de ansiedade de 41% para MZ contra 17% para DZ. O primeiro estudo já utilizando o transtorno de pânico como entidade nosológica foi realizado em 1986 (Torgersen, 1986), tendo o autor encontrado 31% de concordância para MZ contra zero para DZ. Kendler et al. (1993), examinando uma amostragem de 1.033 pares de gêmeas do sexo feminino, encontraram uma concordância de 23,9% para MZ contra 10,9% para DZ. Por fim, Perna et al. (1997) analisaram 120 gêmeos, encontrando uma relação MZ-DZ de 73% contra 0%, num resultado fortemente significativo. Investigaram a mesma diferença para o diagnóstico de ataques esporádicos de pânico, não encontrando diferença significativa (57% versus 43%), revelando a especificidade do transtorno como entidade nosológica distinta e geneticamente transmitida.

Até o presente momento, nenhum estudo de adoção para transtorno de pânico foi publicado na literatura científica.

Modo de transmissão

Por meio de um método conhecido como análise de segregação, busca-se estabelecer o modelo de transmissão genética para um determinado transtorno. Por intermédio da investigação dos heredogramas de famílias afetadas, analisando como se estabelece a transmissão pelas gerações, torna-se possível especular a respeito do modo de transmissão mais plausível. Três análises de segregação foram realizadas para o transtorno de pânico (Pauls et al., 1980; Crowe et al., 1983; Vieland et al., 1993), sem nenhum resultado conclusivo, podendo a transmissão dar-se dentro de um espectro que vai de uma herança mendeliana dominante ou recessiva a modelos poligênicos, ou seja, uma completa indeterminação. Para Crowe (1994), os padrões de transmissão são tão ambíguos e complexos, que a análise de segregação torna-se incapaz de distinguir entre os diversos modelos possíveis, deixando a questão da transmissão em aberto. Um dos modos de apurar o tema da transmissão é dividir o fenótipo em subtipos mais homogêneos, como vimos anteriormente o caso do subgrupo de início até 20 anos para o transtorno de pânico.

Genética molecular

Até o presente momento, poucos estudos moleculares para o transtorno de pânico foram realizados, com resultados ainda não conclusivos. A primeira família de genes investigada foi orientada pela hipótese adrenérgica dos distúrbios de ansiedade; genes dos receptores alfa-1, alfa-2, beta-1 e beta-2 foram testados em ligação com o transtorno, sem contudo apresentar resultado positivo (Wang et al., 1992). Mutchler et al. (1990) também não encontraram evidências para o gene da tirosina hidroxilase. Recentes estudos falharam em encontrar ligação do transtorno de pânico com genes de receptores GABAérgicos tipo A (Crowe et al., 1997); a associação do gene da colecistoquinina (CCK) (Wang et al., 1998) e do gene do receptor nicotínico subunidade alfa-4 neuronal (CHRNA4) (Steinlein et al., 1997) com o transtorno de pânico também não foi observada. Como o transtorno de pânico é, muito provavelmente, etiologicamente heterogêneo, tem-se preferido utilizar as estratégias dos estudos de associação alélica. Até o momento, incluindo os trabalhos mais recentes apresentados no "World Congress on Psychiatric Genetics", em Versailles, na França, não há ainda um estudo que tenha identificado um gene de suscetibilidade para o transtorno de pânico.

Uma nova perspectiva de investigação, a presença do fenômeno da antecipação (ou seja, a tendência ao agravamento da doença e/ou ao início mais cedo dos sintomas por meio das sucessivas gerações), tem sido estudada em famílias com o transtorno de pânico (Battaglia et al., 1998). Esse fenômeno sugere um possível papel das repetições de nucleotídeos em nível molecular. Em conclusão, os avanços na tecnologia molecular associados aos estudos epidemiológicos, refinando os subtipos do transtorno, fazem com que se possa esperar para um futuro próximo achados significativos do campo da genética para a compreensão etiológica, prevenção e tratamento do transtorno de pânico.



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1 Mestre em Psiquiatria pelo Departamento de Psiquiatria da USP.
2 Professor Associado do Departamento de Psiquiatria e Vice-diretor do Laboratório de Neurociências (LIM-27).
Endereço para correspondência: Laboratório de Neurociências (LIM-27), Departamento e Instituto de Psiquiatria do HCFMUSP
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