Fobia
social: perfil clínico, comorbidade e diagnóstico
diferencial
Tito
Paes de Barros Neto1
Resumo
A
fobia social, um transtorno ansioso de evolução
crônica, vem despertando crescente interesse
em pesquisa nos últimos anos. Neste artigo,
algumas características clínicas são abordadas.
Os subtipos generalizado e não generalizado
de fobia social são revistos e discutidos,
além de serem mencionados aspectos relacionados
à comorbidade e ao diagnóstico diferencial.
Dois breves relatos de casos ilustram o perfil
clínico dos subtipos não generalizado e generalizado
de fobia social.
Unitermos:
Fobia social; Subtipos; Comorbidade; Diagnóstico
diferencial.
Abstract
Social phobia: clinical profile, co-morbidity and differential diagnosis
Social phobia, an anxiety disorder with a chronic course, has been
increasingly studied and submitted to research
in recent years. This paper describes some
clinical features. Generalized and non generalized
subtypes of social phobia are reviewed and
discussed, and aspects related to co-morbidity
and differential diagnosis are also mentioned.
Two short case reports illustrate the clinical
profile of non generalized and generalized
subtypes of social phobia.
Keywords:
Social phobia; Subtypes; Co-morbidity; Differential
diagnosis.
INTRODUÇÃO
Embora
Hipócrates já tivesse descrito a ansiedade
social patológica (Marks, 1985), pouco se
abordou sobre o assunto, até que Marks &
Gelder (1966) distinguiram-na da agorafobia
e de outras fobias. De acordo com Liebowitz
et al. (1985a), até a metade da década de
1980, a fobia social era considerada um transtorno
ansioso negligenciado. A partir daí, um número
crescente de publicações têm surgido, revelando
um grande interesse em pesquisa sobre o tema.
O
que caracteriza a fobia social é uma intensa
ansiedade em situações sociais (de contato
interpessoal) ou de desempenho, ou mesmo ambas,
acarretando sofrimento excessivo ou interferindo
de forma acentuada no dia-a-dia da pessoa.
O quadro 1 relaciona os critérios diagnósticos
para a fobia social, de acordo com o Manual
Diagnóstico e Estatístico de Distúrbios Mentais
- DSM-IV (American Psychiatric Association,
1994).
Note-se
que o DSM-IV enfatiza que, para se fazer o
diagnóstico, é importante que o transtorno
cause interferência significativa em alguma
área importante da vida do indivíduo (trabalho,
vida social, atividades acadêmicas e lazer).
Quadro
1
Critérios
diagnósticos do DSM-IV para a fobia social
A. Um
medo acentuado e persistente de uma ou mais
situações sociais ou de desempenho em que
a pessoa se encontra exposta a desconhecidos
ou à possível avaliação por outras pessoas.
O indivíduo teme comportar-se de maneira humilhante
ou embaraçosa (ou mostrar sintomas de ansiedade).
Nota: em crianças, deve haver evidências de
capacidade para relacionamentos sociais adequados
à idade com pessoas que lhe são familiares
e a ansiedade deve ocorrer em contextos que
envolvam seus pares, não apenas em interações
com adultos.
B. A
exposição às situações sociais temidas quase
sempre provoca ansiedade, que pode assumir
a forma de um ataque de pânico situacional.
Nota: em crianças, a ansiedade pode ser expressa
por choro, raiva, irritabilidade ou afastamento
de situações sociais com pessoas desconhecidas.
C. A
pessoa reconhece que o medo excessivo ou irracional.
Nota. Em crianças, essa característica pode
estar ausente.
D. As
situações sociais ou de desempenho são evitadas
ou enfrentadas com muita ansiedade ou desconforto.
E. A
esquiva, a ansiedade antecipatória ou o desconforto
nas situações sociais ou de desmpenho interferem
significativamente na rotina, no funcionamento
ocupacional (acadêmico) das atividades sociais
ou no relacionamentos do indivíduo, ou existe
sofrimento acentuado pela fobia.
F. Em
indivíduos com idade inferior a 18 anos, o
transtorno deve ter uma duração de, pelo menos,
6 meses.
G. O
temor ou a esquiva não se devem aos efeitos
diretos de uma substância (por exemplo, droga
de abuso, medicamento), ou de a uma condição
médica geral e não são mais bem explicados
por outro transtorno mental (por exemplo,
transtorno de pânico com ou sem agorafobia,
transtorno de ansiedade de separação, transtorno
dismórfico corporal, um transtorno de desenvolvimento
ou transtorno esquizóide de personalidade).
H. Na
presença de uma condição médica geral ou de
outro transtorno mental, o medo no descrito
no critério A não tem relação com ele; por
exemplo, o medo não diz respeito à tartamudez,
tremer na doença de Parkinson ou exibir um
comportamento alimentar anormal na anorexia
nervosa ou na bulimia nervosa.
Especificar
generalizada, quando o indivíduo teme a maioria
das situações sociais (considerar também o
diagnóstico adicional de transtorno de personalidade
evitativa).
Outras
características clínicas
O
fóbico social reconhece que o seu medo é exagerado
ou irracional e teme mostrar sinais de ansiedade,
como rubor facial, tremor e sudorese. Em algumas
situações, a ansiedade pode assumir a forma
de um ataque de pânico. Entre outros medos
que se manifestam estão os de parecer ridículo
ou tolo, de ser o centro das atenções, de
cometer erros e de não saber o que se espera
dele. Idéias de referência simples (não delirantes)
ocorrem com freqüência nesse paciente. Desta
forma, é comum que ele se sinta alvo de comentários
ou gozação por parte de outras pessoas, idéias
estas que podem ser corrigidas com argumentação
lógica. Um estudo realizado no AMBAN do Instituto
de Psiquiatria (IPQ) do HCFMUSP (Barros &
Lotufo Neto, 1995) mostrou que 75% da amostra
de fóbicos sociais apresentaram idéias de
referência não delirantes no Present State
Examination (PSE), um instrumento utilizado
para avaliação diagnóstica.
Classificação
Com
a inclusão do subtipo generalizado de fobia
social no DSM-III-R (APA, 1987), como sendo
aquele em que o indivíduo teme ou evita a
maioria das situações sociais, senão todas,
um problema surgiu, uma vez que o DSM-III-R
não estabeleceu critérios operacionais que
determinassem o que seria a "maioria
das situações sociais". Essa lacuna persistiu
no DSM-IV.
Algumas
tentativas foram feitas para se tentar classificar
mais precisamente os subtipos de fobia social.
Em uma delas, os pacientes foram divididos
em dois grupos: os que apresentavam ansiedade
de desempenho, como falar em público, comer,
beber, escrever diante das pessoas e usar
banheiro público, foram considerados de subtipo
restrito e aqueles que temiam situações de
interação social, como iniciar e manter conversas,
festas, reuniões, foram considerados de subtipo
generalizado (Turner et al., 1992). Essa proposta
de classificação levou em conta aspectos unicamente
qualitativos. A fronteira entre esses dois
tipos de ansiedade, entretanto, nem sempre
é nítida e, na prática, o que se observa é
uma mescla de situações de desempenho e de
interação social. Em uma situação de flerte,
por exemplo, ambas parecem estar presentes.
Um
outro estudo (Holt et al., 1992) dividiu os
pacientes em subtipos generalizado (temor
da maioria ou de todas as situações sociais),
não generalizado (temor de um certo número,
mas não da maioria das situações sociais)
e restrito (temor de uma ou duas situações
sociais). De forma semelhante, Mannuzza et
al. (1995) dividiram os pacientes em dois
grupos, e os de subtipo generalizado temiam
a maioria das situações sociais e os de subtipo
não generalizado, a minoria delas. O maior
problema desses dois últimos estudos aparece
no DSM, isto é, não estabeleceram o que é
maioria ou minoria das situações sociais.
O
estudo de Barros (1996), utilizando até três
situações de esquiva de situações sociais
para caracterizar o subtipo não generalizado
e quatro ou mais para caracterizar o subtipo
generalizado, introduziu um critério operacional
adicional até então não identificado em outros
estudos. Os resultados mostraram que o subtipo
generalizado apresentou um perfil psicopatológico
mais grave que o subtipo não generalizado,
sendo o número de situações de esquiva um
bom critério para diferenciá-los, além de
ser um procedimento de fácil aplicabilidade.
Relevância
médico-social
Embora
não seja considerado um transtorno incapacitante,
é reconhecido como passível de acarretar prejuízos
graves em diferentes áreas da vida como trabalho,
atividades acadêmicas, relacionamento familiar,
amoroso e vida social (Schneier et al., 1994).
A
idade de início do quadro se dá na adolescência
ou mesmo na infância, sendo mais comum em
mulheres, indivíduos de nível socioeconômico
mais baixo e não casados (Schneier et al.,
1992).
Ainda
não existem estudos prospectivos sobre o curso
natural da fobia social, mas os estudos retrospectivos
apontam para um curso crônico de difícil remissão
espontânea (Davidson et al., 1993).
Com
a criação do subtipo generalizado de fobia
social pelo DSM-III-R e a possibilidade de
se fazer o diagnóstico concomitante de transtorno
de personalidade evitativa, a prevalência
da fobia social ao longo da vida elevou-se
de 3,8% (Davidson et al., 1993) para 13,3%
(Kessler et al., 1994). Entretanto, em relação
a esse aspecto, os números parecem variar
bastante. Em um dos estudos identificados
(Furmark et al., 1999), os autores afirmam
que, embora a prevalência estimada em sua
amostra tenha sido de 16%, esta pode variar
de 2% a 20%, de acordo com os níveis de sofrimento
e prejuízo funcional utilizados para definir
os casos.
Em
um estudo recente, Faravelli et al. (2000)
observaram a prevalência de aproximadamente
3% em sua amostra de fóbicos sociais. Sabe-se
que a ansiedade social é um fenômeno comum
na população em geral. A questão que se coloca
é quando considerá-la patológica.
Comorbidade
É
elevada a comorbidade em fobia social. Segundo
Schneier et al. (1992), transtornos comórbidos
ocorrem em 69% dos fóbicos sociais, sendo,
de um modo geral, secundários do ponto de
vista cronológico. A presença de comorbidade
parece estar relacionada a um maior prejuízo
funcional (Wittchen et al., 1999).
Síndromes
depressivas ocorrem com freqüências que variam
de17% a 70% entre os fóbicos sociais (Amies
et al., 1983; Stein et al., 1990; Van Ameringen
et al., 1991; Schneier et al., 1992). A depressão
maior é citada como mais freqüente que a distimia
nestes estudos. Embora a ideação suicida esteja
presente entre os pacientes com fobia social,
esta parece estar mais relacionada à intensa
desmoralização apresentada por esses pacientes
que à presença de depressão maior comórbida
(Cox et al., 1994). Por outro lado, Dilsaver
et al. (1992) observaram que 45% dos pacientes
da amostra com diagnóstico primário de depressão
maior preenchiam critérios para o diagnóstico
de fobia social, e que esta só se manifestava
na vigência do quadro depressivo.
Problemas
com álcool são citados em alguns estudos que
abordam a fobia social. Na maioria deles,
o início dos sintomas fóbicos precedeu o início
dos problemas com álcool (Mullaney e Trippett,
1979; Schneier et al., 1992). Outros estudos
observaram que o abuso de álcool era mais
freqüente entre fóbicos sociais quando comparados
a agorafóbicos (Amies et al., 1983; Lotufo-Neto
e Gentil, 1994).
Comorbidade
com outros transtornos de ansiedade também
ocorre na fobia social e é citada com prevalências
distintas (Turner et al., 1991; Schneier et
al., 1992; Marques et al., 1995). Entre os
estudos encontrados, o de Goisman et al. (1995)
merece uma atenção especial, uma vez que,
em sua amostra de mais de 700 pacientes com
transtornos ansiosos, foi observado que mais
de 75% dos 199 fóbicos sociais apresentavam
outro diagnóstico co-mórbido. Para esses autores,
os critérios diagnósticos do DSM não foram
usados de maneira uniforme, acarretando dificuldades
na discussão dos resultados.
Transtornos
alimentares também aparecem na literatura
em comorbidade com a fobia social. Halmi et
al. (1991) observaram elevada ocorrência de
fobia social (34%) em sua amostra de 62 pacientes
com transtornos alimentares. Entre pacientes
com bulimia nervosa, os transtornos que ocorreram
com maior freqüência foram os transtornos
ansiosos e, entre eles, a fobia social (Brewerton
et al., 1995).
Pacientes
com parafilias e compulsões sexuais não parafílicas,
como masturbação compulsiva, sexo por telefone
e outras modalidades de pornografia também
apresentaram comorbidade elevada com fobia
social 32%, de acordo com Kakta et al. (1994).
A
fobia social foi descrita também como secundária
a problemas físicos como gagueira e tremor
essencial (George e Lydiard, 1994). Por outro
lado, há um relato de caso de uma mulher com
fobia social que desenvolveu um quadro de
infecção urinária devido à retenção de urina
por evitar usar o banheiro de um trem (Brandt
et al., 1994).
Em
relação ao Eixo II, há estudos que mostram
que os transtornos de personalidade ocorrem
com freqüência elevada entre os fóbicos sociais.
O transtorno de personalidade evitativa, que
tem sido considerado uma forma mais grave
de fobia social (Turner et al., 1992; Holt
et al., 1992; Herbert et al., 1992),
é o que ocorre com maior freqüência. Outros
transtornos de personalidade, porém, como
o transtorno dependente, esquizotípico, paranóide
e borderline, aparecem com uma freqüência
maior que a esperada (Alnaes e Torgersen,
1988; Sanderson et al., 1994; Jansen et al.,
1994). A presença de um transtorno comórbido
do Eixo II parece estar relacionada à maior
gravidade do quadro de fobia social e também
à sobreposição dos critérios para o diagnóstico
dos transtornos dos Eixos I e II. O quadro
2 descreve os critérios diagnósticos do DSM-IV
para o transtorno de personalidade evitativa.
Ao
se comparar os quadros 1 e 2, fica evidente
a sobreposição de critérios, o que explica
a freqüência elevada da comorbidade entre
fobia social e transtorno de personalidade
evitativa.
Quadro
2
Critérios
diagnósticos do DSM IV para o transtorno de
personalidade evitativa
Um
padrão pervasivo de inibição social , sentimentos
de inedequação e hipersensibilidade à avaliação
negativa que começa no início da idade adulta
e está presente em uma variedade de contexto,
indicado por, pelo menos, quatro dos seguintes
critérios:
1.
Evita atividades que envolvam contato
interpessoal significativo com outras pessoas
devido ao medo da crítica, da desaprovação
ou da rejeição.
2.
É incapaz de se envolver com as pessoas
a menos que tenha certeza de que será aceito.
3.
Limitado a relacionamentos íntimos
devido ao medo de ficar envergonhado ou do
ridículo.
4.
Preocupação de estar sendo criticado
ou rejeitado em situações sociais.
5.
Inibido em novas situações de contrato
interpessoal em função de sentimentos de inadequação.
6.
Tem uma visão de si mesmo como socialmente
inapto, sem atrativos pessoais ou inferior
aos outros.
7.
Relutante a assumir riscos pessoais
ou engajar-se em quaisquer novas atividades
que possam resultar embaraço.
Diagnóstico
diferencial
Ataques
de pânico podem estar presentes na fobia social
e devem ser devidamente distinguidos do transtorno
de pânico, embora seja possível a ocorrência
comórbida de ambos. Um experimento realizado
por Liebowitz et al. (1985b) evidenciou que
a infusão de lactato de sódio desencadeava
mais ataques de pânico entre pacientes com
transtorno de pânico e agorafobia quando comparados
a fóbicos sociais (48% versus 7%, respectivamente).
Enquanto
no transtorno de pânico o temor maior está
relacionado a um problema físico, como ter
um enfarte, derrame ou perder o controle e
enlouquecer, na fobia social é o medo de ruborizar,
tremer, suar e de ser avaliado negativamente
pelas pessoas que estão presentes. Além disso,
ataques de pânico espontâneos ocorrem no transtorno
de pânico, mas não na fobia social, em que
a presença de outras pessoas é necessária
para que se faça o diagnóstico. Mesmo quando
se considera a ansiedade agorafóbica, por
exemplo, em um ambiente cheio de pessoas,
o que a caracteriza é o medo de ter um ataque
de pânico nessa situação, enquanto na ansiedade
social é o medo de estar sendo observado e
avaliado pelas pessoas (Turner e Beidel, 1989).
Enquanto os fóbicos sociais sentem-se mais
confortáveis quando sós, os agorafóbicos preferem
a companhia de outras pessoas, sobretudo as
mais próximas.
Embora
a preocupação com o desempenho possa estar
presente no transtorno de ansiedade generalizada,
esta não se encontra restrita à presença de
outras pessoas, ocorrendo mesmo quando o indivíduo
está só.
No
transtorno dismórfico corporal, a preocupação
está centrada em algum defeito físico real
(geralmente de proporção mínima) ou imaginário.
É a aparência que está em questão, enquanto
na fobia social é o desempenho ou contato
interpessoal, isto é, como a pessoa vai se
portar nas situações sociais.
Depressão
atípica, caracterizada pela presença de ansiedade
acentuada e hipersensibilidade à rejeição,
que também estão presentes na fobia social,
pode ser um diagnóstico diferencial difícil
de ser feito em função dessa sobreposição
de sintomas. No entanto, não se observam a
esquiva e o desconforto em situações sociais
presentes nessa última.
Na
distimia, embora o desconforto e mesmo a esquiva
de situações sociais possam estar presentes,
manifestam-se sobretudo nos períodos de piora
dos sintomas depressivos, ao passo que, na
fobia social, a ansiedade costuma manter-se
em níveis constantes.
Nas
psicoses, o que se observa são idéias delirantes
verdadeiras, difíceis de serem removidas por
argumentação lógica. Na fobia social, são
as idéias de referência simples que estão
presentes, e o paciente geralmente tem crítica
de que está fazendo um juízo errado das situações.
Indivíduos
com transtorno esquizóide de personalidade
não se interessam por contatos sociais, permanecendo,
por isto, isolados, ao passo que os fóbicos
sociais anseiam por esses contatos, mas têm
muita dificuldade ou não conseguem fazê-lo,
daí seu isolamento.
Relatos
de casos
Caso
1
Paciente
D., 38 anos, solteira, professora, queixava-se
de pavor de preencher e assinar cheques ou
tomar uma bebida na frente de outras pessoas.
Passou a evitar sair com os amigos por não
se sentir bem ao recusar bebidas, o que, segundo
ela, poderia parecer estranho. Evitava usar
cheques e também dirigir por achar que iria
tremer. O quadro iniciou-se aos 18 anos de
idade e a cognição mais freqüente, apresentada
pela paciente, era "eu vou tremer".
A
paciente foi medicada com propranolol 20 mg
ao dia e foi construída uma hierarquia para
exposição, na qual ela foi encorajada a enfrentar
seus medos fóbicos em um grau crescente de
dificuldade. Assim, segundo a paciente, era
mais fácil tomar uma bebida na frente das
pessoas que preencher um cheque diante delas
e que, por sua vez, era mais fácil do que
assiná-lo. A evolução foi favorável, tendo
havido redução do tremor com o uso do propranolol,
o que facilitou a exposição, levando à habituação.
Permaneceu a esquiva para dirigir, que a paciente
preferiu não tratar.
Caso
2
Paciente
S., 26 anos, solteiro, comerciante, apresentava
queixa de muita dificuldade no relacionamento
com as pessoas desde que era menino. Sua maior
dificuldade era conseguir conversar com elas,
o que passou a evitar, pois sentia-se muito
mal, com tontura, sudorese, taquicardia, tremor,
ondas de calor que subiam para a sua face,
tensão muscular e dor de cabeça. Nessas ocasiões,
não sabia o que dizer, se podia ou não fazer
perguntas, se a pessoa estava ou não gostando
da sua companhia e sentia-se extremamente
constrangido. Pessoas que julgava serem mais
inteligentes ou mais bem sucedidas que ele
eram as que mais geravam constrangimento no
paciente, embora ele mesmo tivesse sucesso
profissional (possuía uma franquia). Nas ocasiões
em que havia encontros com a família, na casa
dos pais, permanecia isolado ou na cozinha,
conversando com uma antiga empregada. A única
pessoa com quem o paciente se relacionava,
além de seus familiares mais próximos, era
a namorada, sua vizinha desde a infância e
com quem mantinha um relacionamento amoroso
há oito anos.
Nesse
relacionamento, o paciente preferia ficar
em casa com ela. Nas poucas vezes que saíram
e foram a um lugar público, ele se sentiu
muito mal, achava que todos o observavam e
que havia pessoas fazendo comentários e até
caçoando dele. Em uma ocasião em que foram
a um restaurante, o paciente sentiu-se mal
e vomitou. A partir daí não quis mais freqüentar
restaurantes. Ao procurar tratamento, o paciente
queixava-se de isolamento social praticamente
total - evitava sair de sua loja para almoçar,
pois sentia-se observado, apresentava considerável
grau de anedonia e pensava que morrer talvez
solucionasse o seu problema.
O
paciente foi medicado com tranilcipromina
até 80 mg/dia, com melhora importante dos
sintomas depressivos e também da ansiedade
social. Em relação à ultima, os sintomas físicos
diminuíram de intensidade e as idéias de referência
praticamente desapareceram, embora esquiva
em relação a uma série de situações sociais
permanecesse. O paciente foi então encaminhado
para terapia cognitivo-comportamental e evolui
satisfatoriamente.
Discussão
Ao
se observar esses dois relatos, pode-se afirmar
que ambos preenchem critérios para o diagnóstico
de fobia social. No primeiro deles, entretanto,
a ansiedade restringia-se a tremer em determinadas
situações (escrever, beber e dirigir), ao
passo que, no segundo, o paciente temia ou
se esquivava de quase todas as situações que
implicassem estar com as pessoas, tendo apresentado,
inclusive, idéias de referência simples e
uma síndrome depressiva comórbida. Esse paciente
preenchia também critérios para o diagnóstico
de transtorno de personalidade evitativa,
caracterizando, assim, um quadro mais grave
de fobia social. Pode-se dizer que o primeiro
é um caso de fobia social de subtipo não generalizado,
e o segundo, de subtipo generalizado.
Conclusões
Com
a publicação do DSM-IV, o diagnóstico clínico
da fobia social ficou mais claro. No entanto,
do ponto de vista da pesquisa, ainda há muito
para ser feito. O DSM-IV não especifica, por
exemplo, a extensão do prejuízo funcional
que deve ser considerado para que seja feito
o diagnóstico e como proceder para mensurá-lo.
Isso acarreta resultados muito diferentes
em estudos epidemiológicos que procuram avaliar
a prevalência da fobia social.
Em
relação aos subtipos, algo similar ocorre,
já que o DSM-IV não estabeleceu critérios
adicionais para definir o que seria "maioria
das situações sociais" para caracterizar
o subtipo generalizado de fobia social. Conseqüentemente,
também não fica claro o que é fobia social
restrita, circunscrita ou não generalizada.
Há autores que propõem até que a fobia de
falar em público seja separada em um subtipo
à parte de fobia social (Stein et al., 1994).
A
comorbidade com outros transtornos mentais
ocorre em mais de 75% dos casos e é muito
variável - depressão, problemas com álcool,
transtornos ansiosos, alimentares e desvios
sexuais, além de transtornos do Eixo II (excetuando-se
o transtorno de personalidade evitativa).
O
diagnóstico diferencial deve ser bem feito.
A presença de ataques de pânico, por exemplo,
não caracteriza transtorno de pânico, sobretudo
se ocorrerem em situações de contato interpessoal.
É preciso que as situações sociais e de desempenho
fiquem bem caracterizadas. Dessa forma, evita-se
fazer o diagnóstico de fobia social em pacientes
com transtorno de ansiedade generalizada,
transtorno dismórfico corporal, depressões
atípicas e até mesmo psicoses.
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1
Médico pesquisador do Ambulatório de Ansiedade
(AMBAN) do Instituto de Psiquiatria do HCFMUSP.
Mestre em Psiquiatria pela FMUSP.
AMBAN - Ambulatório de Ansiedade do Instituto
de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da
Faculdade de Medicina da Universidade de São
Paulo (HCFMUSP).
Endereço para correspondência: Rua Dr. Ovídio
Pires de Campos, s/n - São Paulo, SP - CEP
05403-010 -
Tel.: (0XX11) 3069-6988 - Fax: (0XX11) 853-5032
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