Tratamento
farmacológico da fobia social
Vera
Tess1, Márcio Bernik2
Resumo
A
fobia social é um transtorno crônico que leva
a um prejuízo importante do funcionamento
dos pacientes. Na última década, maior ênfase
tem sido dada à farmacoterapia da ansiedade
social. Os betabloqueadores são úteis na fobia
social circunscrita, enquanto os antidepressivos,
especialmente os inibidores seletivos de recaptação
de serotonina, são a primeira escolha nos
quadros de fobia social generalizada. Este
artigo revisa as possibilidades farmacológicas
existentes e discute a sua aplicação na prática
clínica.
Unitermos:
Fobia social; Transtornos de ansiedade;
Farmacoterapia; Antidepressivos; Benzodiazepínicos.
Abstract
The
pharmacological treatment of social phobia
Social
phobia is a chronic medical condition leading
to enduring suffering and dysfunction. The
pharmacological treatment of this condition
was neglected until the mid 80s, but this
trend has been more than reversed in the last
decade. Among the drugs studied for the treatment
of this condition beta-blockers, benzodiazepines
and antidepressants have been investigated.
In this review, both strengths and shortcomings
of the available treatment modalities have
been considered.
Keywords:
Social phobia; Anxiety disorders; Pharmacotherapy;
Antidepressants; Benzodiazepines.
Introdução
As
primeiras evidências de que a farmacologia
poderia contribuir para o tratamento da ansiedade
social datam da década de 1970. Estudos de
casos com populações não clínicas (músicos,
alunos) demonstraram melhora do desempenho
em situações de ansiedade com uma dose única
de betabloqueadores (Liebowitz et al., 1985).
No mesmo período, observou-se em estudos controlados
com pacientes com fobias múltiplas e depressão
que a fenelzina se mostrava mais eficaz que
o placebo em algumas medidas que avaliavam
sintomas de ansiedade social, como sensibilidade
interpessoal e má adaptação social (Liebowitz
et al., 1986).
A
efetividade dos inibidores da monoaminoxidase
(IMAO) na fobia social foi confirmada na década
de 1980 por meio de estudos com a fenelzina
e a tranilcipromina. Apesar da sua eficácia
comprovada, os efeitos adversos associados
ao uso dos IMAO e o lançamento dos inibidores
da monoaminoxidase seletivos e reversíveis
(RIMA) e dos inibidores seletivos de recaptação
de serotonina (ISRS) nos anos 1990, drogas
mais seguras e mais bem toleradas, fizeram
as atenções dos pesquisadores e dos clínicos
se voltarem para esses dois grupos de antidepressivos
recentemente.
O
tratamento farmacológico da fobia social tem
como principais objetivos: 1) reduzir e controlar
a ansiedade antecipatória; 2) controlar as
manifestações físicas e subjetivas da ansiedade
quando da exposição a estímulos eliciadores
de ansiedade; 3) eliminar a esquiva fóbica
associada.
O
tratamento deve, também, tratar adequadamente
transtornos comórbidos (70% dos pacientes
com fobia social têm outro transtorno psiquiátrico)
(Pollack, 1999). Finalmente, por ser um transtorno
de curso crônico, o tratamento escolhido deve
ser bem tolerado, mantendo a aderência do
paciente a longo prazo.
Três
classes de medicação têm se mostrado eficazes
na fobia social: os betabloqueadores na fobia
social circunscrita e os benzodiazepínicos
e os antidepressivos na fobia social generalizada.
Entre estes últimos, os IMAO, os RIMA e os
ISRS são os mais estudados e utilizados na
prática clínica.
Betabloqueadores
A
maior parte dos estudos com betabloqueadores
é com populações não clínicas, como músicos,
estudantes ou médicos. Nesses estudos, os
betabloqueadores foram utilizados em dose
única antes da situação de desempenho (um
concerto, por exemplo) e posteriormente foram
avaliadas a percepção de ansiedade e do desempenho.
O controle dos sintomas autonômicos, como
taquicardia, sudorese e tremor, foi percebido
como uma diminuição da ansiedade levando à
melhora do desempenho (Liebowitz et al., 1985).
Os
betabloqueadores não têm uma ação direta no
componente emocional da ansiedade, mas a melhora
dos sintomas físicos leva a uma percepção
de controle, o que pode determinar indiretamente
uma melhora da ansiedade subjetiva. Portanto,
são úteis em situações circunscritas em que
há ansiedade de desempenho, como, por exemplo,
falar, comer, beber, escrever ou se apresentar
em público. No entanto, em situações de relacionamento
interpessoal, os betabloqueadores não se diferenciam
da resposta ao placebo (Liebowitz et al.,
1992).
A
tabela 1 descreve as doses e a forma de usar
os betabloqueadores na ansiedade social circunscrita.
O clínico deve ter alguns cuidados antes de
prescrevê-los.
Os
betabloqueadores:
1.
Estão contra-indicados em pacientes com asma,
doença obstrutiva crônica, insuficiência cardíaca
e diabetes tipo 1, 2;
2.
Devem ser testados, antes da situação de desempenho,
para se avaliar a dose eficaz e a tolerabilidade;
3.
Devem ser utilizados com cautela em atividades
que necessitam de esforço físico, como, por
exemplo, jogar, cantar ou tocar instrumentos
de sopro, pois pode haver um prejuízo da qualidade
do desempenho;
4.
Podem apresentar ainda os seguintes efeitos
colaterais: tontura, hipotensão e distúrbios
do sono.
Antidepressivos
IMAO
irreversíveis e não seletivos
Até
a introdução dos ISRS, os IMAO eram a medicação
mais bem estudada e que demonstravam os melhores
resultados no tratamento da fobia social.
A tabela 2 descreve os estudos com fenelzina,
que mostraram benefícios de 60% a 91% no tratamento
agudo (de 8 a 12 semanas).
Existe
apenas um estudo - aberto - com a tranilcipromina,
o único IMAO não seletivo e irreversível disponível
no Brasil (Versiani et al., 1988). Neste estudo,
com 29 pacientes, duração de um ano e doses
de 40 mg/dia a 60 mg/dia, 62% apresentaram
melhora acentuada e 17%, resposta parcial.
As
doses eficazes da fenelzina são de 60 a 90
mg/dia e da tranilcipromina de 30 a 60 mg/dia,
e alguns pacientes podem precisar de doses
mais elevadas. A partir da quarta semana começa
haver resposta, porém, em geral, são necessárias
até 12 semanas para haver melhora significativa.
Um aspecto comum a todas as abordagens farmacológicas
para fobia social é a alta taxa de recaída
que se observa após a retirada da medicação
(Versiani et al., 1988; Pollack, 1999), confirmando
a necessidade de tratamentos de manutenção
a longo prazo (pelo menos 1 ano).
Monoaminoxidase
A reversível (RIMA)
A
preocupação com a segurança tem estimulado
estudos com os inibidores da monoaminoxidase
A reversível (RIMA), que não requerem restrições
alimentares e têm risco muito menor de crises
hipertensivas (pelo menos em doses baixas).
No Brasil, temos a moclobemida e em alguns
países da Europa e Canadá, a brofaramina é
utilizada. A tabela 3 mostra os estudos controlados
com moclobemida na fobia social.
A
dose preconizada da maclobemida é entre 300
mg/dia e 600 mg/dia. Não há necessidade de
restrição alimentar com essa dose e poucos
são os efeitos colaterais referidos (insônia,
sonolência diurna, cefaléia e tontura). A
resposta terapêutica à moclobemida aumenta
com doses maiores que 600 mg/dia, o que diminui
a sua tolerabilidade e sua segurança (Noyes
et al., 1997). A sua eficácia é controversa,
porém os estudos mais recentes
demonstram resposta igual ao do placebo, sendo
hoje quase consenso tratar-se de droga com
eficácia apenas marginal.
Inibidores
Seletivos de Recaptação de Serotonina (ISRS)
Atualmente
são as drogas de primeira escolha na fobia
social em função de estudos recentes sugerirem
resultados próximos (mas não idênticos) àqueles
obtidos com os IMAO. São medicações seguras
e de um perfil de efeitos adversos mais favorável.
Inicialmente,
relatos de casos e estudos abertos com citalopram,
fluoxetina, sertralina e paroxetina demonstraram
boa resposta (Lepola et al., 1994; Stravysnky
e Greenberg, 1998; Lydiard, 1998). Somente
mais recentemente (porém muito posteriormente
à generalização de seu uso nessa indicação)
surgiram estudos controlados com sertralina,
fluvoxamina e paroxetina (Tabela 4).
Entre
os ISRS, a paroxetina foi a mais bem avaliada
até o momento. Três estudos multicêntricos,
um americano, um inglês e um sul-africano,
foram realizados mostrando "resposta"
entre 50% a 70%. Remissão total é difícil
de ser atingida nessa população - especialmente
com ISRS.
A
resposta ao tratamento pode levar até 12 semanas,
geralmente apresentando início de melhora
a partir da sexta semana, podendo ser progressiva
ao longo de vários meses. Em um estudo de
descontinuação com paroxetina, Stein et al.
(1996) observaram uma alta taxa de recaída
(87,5% dos pacientes com paroxetina permaneceram
bem em comparação a 37,5% dos pacientes que
passaram a tomar placebo).
As
doses efetivas são semelhantes às utilizadas
para a depressão. Os efeitos colaterais mais
freqüentes no início do tratamento são alterações
do padrão de sono, náusea, agitação ou ansiedade
e cefaléia. Geralmente são bem tolerados,
especialmente quando iniciados em doses baixas,
e o aumento é feito de forma gradativa. Permanência
de insônia, aparecimento de disfunção sexual
(especialmente diminuição de desejo e retardo
ou inibição do orgasmo) e aumento do peso
são os efeitos colaterais que aparecem a médio
e longo prazos e os maiores responsáveis pela
descontinuação do tratamento.
Antidepressivos
Tricíclicos
A
impressão clínica e os poucos dados de literatura
sugerem que os antidepressivos tricíclicos
não são eficazes na fobia social, melhorando
apenas os sintomas depressivos associados.
No entanto, essas conclusões se baseiam apenas
em um estudo aberto (Simpson et al., 1998)
e um controlado (Pollack, 1999).
Benzodiazepínicos
Relatos
de casos, estudos abertos e mais recentemente
dois estudos controlados (Tabela 5) têm demonstrado
que os benzodiazepínicos de alta potência,
como o alprazolam e o clonazepam, são agentes
extremamente eficazes no tratamento da fobia
social (Barros-Neto & Bernik, 1999).
A
resposta aos benzodiazepínicos inicia-se a
partir da segunda semana e as doses eficazes
para o alprazolam são de 1 mg/dia a 8 mg/dia
(divididos em três a quatro tomadas) e para
o clonazepam são de 1 mg/dia a 3 mg/dia (uma
a duas vezes ao dia). Dada a ampla faixa terapêutica,
a dose deve ser individualizada, iniciando-se
com doses baixas e aumentando gradualmente
de acordo com a resposta e a tolerabilidade.
Apesar
da alta eficácia, diversos fatores limitam
o uso de benzodiazepínicos:
1.
Seu perfil de efeitos colaterais como sedação,
fadiga, que pode lembrar uma pseudodepressão;
2.
Prejuízos no funcionamento psicomotor e cognitivos
(atenção e memória);
3.
Interação com álcool (24% a 35% dos pacientes,
Lotufo-Neto e Gentil, 1994; Magee et al.,
1996);
4.
A habituação na exposição é prejudicada quando
o paciente usa o medicamento para se expor
às situações;
5.
Dificuldade de descontinuação e possível desenvolvimento
de dependência fisiológica.
Na
prática clínica, os benzodiazepínicos são
usualmente utilizados em combinação com os
antidepressivos. Essa associação permite um
início de resposta mais rápido (a partir da
segunda semana) e pode reduzir o aumento da
ansiedade freqüentemente associado ao início
da terapia com os antidepressivos (especialmente
ISRS e IMAO). Após o início da resposta terapêutica
do antidepressivo, os benzodiazepínicos podem
ser retirados lentamente na maior parte dos
pacientes. Alguns pacientes necessitam de
seu uso continuado.
Considerações
Finais
A
fobia social é um transtorno crônico que leva
a um comprometimento importante do funcionamento
dos pacientes, responde parcialmente aos tratamentos
conhecidos e apresenta altas taxas de recaída
após descontinuação dos fármacos.
O
tratamento farmacológico deve ser, portanto,
a longo prazo (pelo menos um ano de manutenção)
e todos os recursos terapêuticos conhecidos
devem ser utilizados com o intuito de otimizar
e manter a resposta terapêutica. O subtipo
e a presença de transtornos comórbidos devem
ser considerados ao se escolher o tipo de
fármaco a ser prescrito. Os antidepressivos
são a primeira escolha, podendo inicialmente
estar associados aos benzodiazepínicos. A
terapia cognitivo-comportamental deve ser
iniciada após melhora da depressão ou do abuso
de álcool freqüentemente presente. Abaixo
está descrito o algoritmo utilizado pelo Ambulatório
de Ansiedade (AMBAN) do Instituto de Psiquiatria
do HCFMUSP no tratamento da fobia social (Tabela
6).
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1
Mestre em Medicina e Médica Pesquisadora do
Ambulatório de Ansiedade (AMBAN) do Instituto
de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, Faculdade
de Medicina da USP.
2 Doutor em Medicina e Coordenador do Ambulatório
de Ansiedade do IPQ-HC, Faculdade de Medicina
da USP.
Endereço para correspondência: AMBAN - Ambulatório
de Ansiedade do Instituto de Psiquiatria do
HCFMUSP Rua Dr. Ovídio Pires de Campos, s/n
- São Paulo, SP - CEP 05403-010