Tratamento
psicoterápico da fobia social - abordagem
comportamental cognitiva
Mariangela
Gentil Savoia1, Tito Paes de Barros
Neto2
Resumo
A
abordagem comportamental cognitiva tem proposto
e divulgado diversas técnicas no tratamento
da fobia social. Neste artigo, são descritos
a exposição ao vivo, o treino de habilidades
sociais e a reestruturação cognitiva. O treino
de habilidades sociais propicia repertório
social adequado para a exposição, trazendo
maior confiança no enfrentamento da tarefa
e das situações sociais. O procedimento psicoterápico
pode ser realizado individualmente ou em grupo,
e este último apresenta vantagens em relação
ao individual, aqui comentadas.
Unitermos:
Fobia social; Terapia comportamental cognitiva;
Terapia de grupo.
Abstract
The
cognitive behavioral approach to social phobia
The
cognitive behavioral approach has proposed
and reported many techniques for treating
social anxiety disorder. The present article
describes live exposure, cognitive reconstruction
and social ability training. The latter provides
an adequate social repertoire for exposure,
that in turn leads to more confidence for
facing tasks and social situations. Psychotherapy
may be performed on an individual or group
basis. The advantages of group therapy over
individual therapy are discussed.
Keywords:
Social anxiety disorder; Cognitive behavioral
therapy; Group therapy.
Introdução
A
abordagem comportamental cognitiva tem proposto
e divulgado diversas técnicas no tratamento
da fobia social. Neste artigo, iremos descrever
os procedimentos das seguintes: treino
de habilidades sociais, terapia baseada em
exposição, terapia de base cognitiva e terapia
comportamental cognitiva em grupo.
Das
técnicas propostas, a exposição ao vivo às
situações temidas é a mais largamente reconhecida
como central e eficaz na redução das reações
de ansiedade fóbica (Barlow, 1988). Diversos
estudos examinaram a eficácia da exposição,
em sua forma pura, no tratamento da fobia
social (Al-Kubaisy et al., 1992; Alstrom et
al., 1984; Turner et al., 1994 e Wlaslo et
al., 1990). Esses estudos envolvem procedimentos
em comum:
1.
A construção, em colaboração do terapeuta
e do paciente, de uma lista de situações eliciadoras
de ansiedade fóbica.
2.
Confrontação progressiva, sistemática e por
tempo prolongado pelo paciente das situações
temidas, trabalhando desde a situação que
elicia menor ansiedade para a mais ansiogênica.
De
acordo com Dyck (1996), um dos princípios
da terapia comportamental cognitiva no tratamento
dos transtornos de ansiedade é a exposição
do paciente às situações geradoras de ansiedade.
Agindo assim, espera-se que, ao longo do tratamento,
haja uma habituação e que o paciente tenha
uma resposta de ansiedade diminuída perante
esses estímulos, quando tratamos de ansiedade
social, patológica e social. A exposição em
questão é mais difícil de se realizar em pacientes
com fobia social que em outros transtornos
ansiosos, tendo sido descrita na literatura
com mais de uma década de atraso em relação
ao emprego da exposição para agorafobia ou
transtorno obsessivo-compulsivo.
A
utilização da técnica de exposição em fobia
social é mais complexa, uma vez que a fobia
social apresenta características que dificultam
a utilização do procedimento. A imprevisibilidade
de algumas situações sociais quanto à sua
ocorrência (festas, por exemplo) e a curta
duração de outras (por exemplo, assinar em
público) dificultam a habituação (Butler,
1985). Sabe-se que a exposição eficaz deve
ser feita com freqüência elevada e por tempo
prolongado.
O
problema pode ser contornado com algumas adaptações.
Pode-se construir uma hierarquia, buscando-se
um tema comum, como conversar com as pessoas.
Procura-se, assim, fazer com que o paciente
comece a se expor com quem tenha menos dificuldade
de relacionamento e gradualmente avance em
direção às pessoas com quem apresenta maior
dificuldade. Quanto à duração restrita de
algumas situações, o problema pode ser compensado
por um aumento na freqüência da exposição
(por exemplo, fazer pequenas compras no supermercado
várias vezes ao dia e pagar sempre com cheque).
Boa parte das dificuldades relativas à exposição
são minimizadas, conforme veremos adiante,
quando o procedimento é realizado em grupo.
O simples fato de estar com outras pessoas
já funciona como um procedimento de exposição.
Treino
de habilidades sociais
O
treino de habilidades sociais tem sido indicado
para tratamento da fobia social porque, em
geral, os fóbicos sociais apresentam déficits
de habilidades sociais que dificultam as situações
de exposição. Um repertório de habilidades
sociais pode facilitar não só a exposição,
como também auxiliar na modificação das crenças
disfuncionais devido à redução de ansiedade
no confronto interpessoal. Em uma investigação
realizada no AMBAN, Savoia et al. (não publicado),
observaram que esse treino propiciou aos pacientes
repertório adequado para a exposição e aumentou
a confiança dos pacientes no enfrentamento
das situações sociais. Segundo Turner et al.
(1995), o treino de habilidades sociais consiste
em um modelo de contracondicionamento.
Caballo
(1993) definiu habilidade social como o conjunto
de comportamentos emitidos por uma pessoa
em um contexto interpessoal que expressa sentimentos,
atitudes, desejos, opiniões ou direitos de
um modo adequado à situação, respeitando-se
os demais. Geralmente, resolve os problemas
imediatos da situação, com probabilidade de
minimizar problemas futuros.
As
classes de resposta que definem habilidades
sociais são:
"
Iniciar e manter conversação - as pessoas
com pouca habilidade social, muitas vezes,
relatam que não têm assunto, acham que o que
vão dizer não é pertinente ou não inteligente.
"
Falar em público - em um seminário, uma aula
ou uma conferência.
"
Fazer elogios - saber dizer, por exemplo:
"como você é elegante!"
"
Aceitar elogios - "Eu também acho
esta blusa bonita", ao invés de dizer
"Você acha? É velha".
"
Pedir favores - saber receber um não como
resposta. Solicitar um favor não implica em
que o outro deva atender ao nosso pedido.
"
Expressar sentimentos - tanto positivos quanto
negativos.
"
Defender os próprios direitos - "Quer
parar de conversar enquanto eu assisto ao
filme?"
"Estamos
discutindo um caso e vocês estão fazendo barulho".
"
Fazer críticas - saber criticar o que a pessoa
fez (o ato), não a pessoa.
"
Receber críticas - avaliar o que tem de correto
na crítica, admitir o erro e apresentar a
sua avaliação do fato.
"
Desculpar-se - em situação que ofendeu alguém,
pedir desculpas.
"
Admitir ignorância - não precisamos saber
tudo, não há nada errado em admitir ignorância
de algum fato.
"
Recusar pedidos - "Não, eu não vou
poder ir até o aeroporto buscar a sua sogra".
"
Fazer acordos - não adianta querer fazer prevalecer
o seu ponto de vista, tente encontrar no ponto
de vista do outro o que poderá ser comum e,
a partir daí, fazer um acordo.
"
Expressar opiniões pessoais (inclusive discordantes).
Os
componentes da habilidade social incluem a
comunicação não verbal que é expressa através
do olhar, da expressão facial, da orientação
corporal, dos gestos, e o comportamento verbal,
avaliado por meio do tom de voz, volume, inflexão,
fluidez, clareza, velocidade. Os padrões comportamentais
resultantes desses componentes são: o assertivo,
que se expressa, o não assertivo, que evita
confrontações, e o agressivo, que explode.
Consideremos
a seguinte situação: você comprou uma mercadoria
com defeito e vai até a loja para trocá-la.
O vendedor diz que é muito fácil consertar
e se propõe a fazê-lo para você. A pessoa
não assertiva diria algo mais ou menos assim:
Bem, eu queria trocar a mercadoria...,
"mas, se você conserta, está
bem". O agressivo: " troque-a
agora mesmo! Não vim buscar um conserto. Arrume
outra já". O assertivo - "é
provável que possa consertar, mas prefiro
que troque por outra mercadoria".
No
quadro 1 são apresentados os comportamentos
e as emoções resultantes desses três padrões
comportamentais, tendo como enfoque os dois
momentos da interação social, o sujeito enquanto
emissor e receptor.
Os
procedimentos do treino de habilidades sociais
geralmente acontecem como se segue. Inicialmente
se faz uma avaliação minuciosa e detalhada,
descrevendo-se a situação-problema. Essa forma
de avaliação é chamada pelos teóricos comportamentais
de análise funcional. Nesse momento do processo
terapêutico, descreve-se não só o problema
de inabilidade, mas também em que situações
ele se apresenta e que conseqüências tem para
o paciente. Um dos tópicos importantes a ser
investigado na análise funcional é a identificação
dos pensamentos disfuncionais que podem estar
influenciando o comportamento socialmente
inadequado do paciente. São chamados de disfuncionais
os pensamentos que têm a função de desencadear
um comportamento inadequado.
Os
fóbicos sociais têm algumas cognições que
os impedem de se engajar em comportamentos
sociais, como, por exemplo, preocupação exacerbada
com a percepção da sua ansiedade pelos outros,
preocupação com sua atividade autonômica,
temor da avaliação negativa, sensação de ser
inferior ou mais inadequado que os demais,
tendência a rebaixar seu próprio comportamento,
atenção seletiva para aspectos negativos da
situação, fantasias negativas que produzem
ansiedade antecipada, conceitos rígidos sobre
a conduta social apropriada e sensibilidade
excessiva à desaprovação e crítica.
Com
a descrição do que o paciente faz normalmente
nas situações de inabilidade social, deve-se
avaliar os possíveis comportamentos que possam
ter na situação e também considerar as limitações
impostas pela realidade. Por exemplo, seria
de pouco bom senso ser assertivo em um assalto
ou ao receber uma incumbência desagradável
de um superior. Após o levantamento das possíveis
conseqüências a curto e longo prazos das diferentes
possibilidades de ação, decide-se por um determinado
comportamento e passa-se a treinar o paciente.
Entre
as estratégias para treino de habilidades
sociais, está o ensaio comportamental, que
consiste na descrição da situação-problema
e uma representação do que o paciente normalmente
faz. Após a escolha da resposta adequada,
que é dramatizada, pode-se fazer a inversão
de papéis - terapeuta/paciente - e representação
exagerada de papéis, terminando com o ensaio
pelo paciente da resposta escolhida.
Quando
feita em grupo, essa técnica é mais eficaz,
porque os membros do grupo participam da dramatização,
propiciando várias interpretações da mesma
situação e a possibilidade de inclusão de
diversos papéis que uma situação complexa
pode oferecer. Por exemplo, quando alguém
fura uma fila, tem-se a oportunidade de fazer
uma fila e treinar o comportamento adequado
para essa situação, da mesma forma que uma
simulação de festa pode ser criada no grupo
com a representação de várias situações ansiogênicas,
por exemplo, conversar, comer e beber, o que
não seria possível em uma terapia individual.
Uma
das situações freqüentemente ensaiadas é a
de iniciar e manter conversação. Os pacientes
são orientados no sentido de fornecer informação
gratuita e pessoal, ao invés de mostrar um
comportamento retraído com respostas curtas,
vagas, que podem ser interpretadas pelo interlocutor
como desinteresse na conversa.
Uma
situação fictícia ocorrida em uma livraria
pode ilustrar o que foi dito acima. Uma moça
com fobia social, ao ser abordada por um rapaz
por quem se interessou, poderia utilizar respostas
curtas e monossilábicas ou desviar demais
o olhar, o que seria por ele interpretado
como desinteresse. Conseqüentemente ele se
afastaria, porque ela não conseguiu manter
o diálogo. No treino de habilidades sociais,
seria feito um levantamento das alternativas
de respostas que poderiam demonstrar interesse
por parte da moça e sustentar o diálogo entre
eles. Os componentes do grupo, ou o próprio
terapeuta, fariam o revezamento de papéis
com o paciente.
Esses
comportamentos treinados em sessão deverão
ser trabalhados também fora da sessão. É por
isso que nós, terapeutas comportamentais,
solicitamos aos pacientes que realizem "tarefas
de casa." Algumas vezes é solicitado
ao paciente que faça registros e observe o
seu comportamento, e, em outras, solicita-se
que ele(a) emita comportamentos que não façam
parte do seu repertório, como pedir uma informação
em um balcão de shopping, por exemplo.
Terapia
em grupo
A
principal vantagem da terapia em grupo em
relação à terapia individual para o fóbico
social é que o grupo funciona como uma situação
social vivida pelo paciente e observada pelo
terapeuta. Nos grupos, o paciente poderá exercitar
tarefas comportamentais com outros pacientes,
de forma a sedimentar as cognições recém-adquiridas
na própria sessão, além de submeter-se a exercícios
de exposição às situações sociais temidas
durante as sessões. Além disso, há
sempre a possibilidade de se criar situações
por meio do ensaio comportamental (por exemplo,
fazer um discurso para o grupo ou mesmo uma
festa). Quando o ensaio é feito em grupo,
facilita-se a possibilidade de vários papéis
de uma mesma situação serem representados,
tornando-os mais próximos do real.
De
acordo com a revisão de Falcone (1995), as
vantagens do tratamento em grupo da fobia
social são variedade de ensaio comportamental
com um número maior de pessoas, generalização
mais rápida dos ganhos terapêuticos, maior
quantidade de feedback efetivo dos
desempenhos (reforço social), maior experiência
com um número maior de situações-problema
e mais suporte para solucioná-las, mais disponibilidade
de modelos múltiplos, intensificação da aprendizagem
de discriminação e maior generalização de
novos comportamentos de enfrentamento para
uma faixa mais ampla de situações.
Na
situação do ensaio comportamental, propiciada
pelo grupo, o tratamento da fobia social atinge
grande eficácia, sobretudo no treino de habilidades
sociais que propicia ao paciente a possibilidade
de observar modelos adequados a situação,
os outros membros do grupo. Embora as pessoas
de um mesmo grupo tenham, em geral, déficits
de habilidades sociais, as situações em que
as apresentam podem ser diferentes; dessa
forma, pacientes com déficits de habilidades
sociais em uma situação podem ser modelos
em outras situações.
Há
descrições, na literatura, de recursos terapêuticos
no manejo da fobia social com a terapia comportamental
cognitiva, que só são possíveis nas terapias
em grupo. Albano et al. (1995) citam um exemplo
de uma terapia em que os terapeutas estabeleciam
pausas ao longo da sessão. Durante essas pausas,
itens do tratamento eram revistos informalmente,
por meio de exercícios de miniexposição que
tinham como alvo déficits sociais específicos
de cada membro do grupo, mas compartilhados
com todo o grupo.
Além
das vantagens do grupo como recurso terapêutico,
Heimberg (1993) aponta que o grupo também
é uma boa maneira do terapeuta monitorar se
o paciente está assimilando o tratamento de
forma adequada. De acordo com o autor, é muito
mais difícil para o terapeuta perceber se
o paciente em terapia individual aprendeu
adequadamente a aplicar suas tarefas cognitivas
em situações de vida real, já que não poderá
acompanhar a sua prática comportamental no
dia a dia. No grupo, essa possibilidade pode
ser concretizada: o terapeuta coloca-se no
papel de espectador, enquanto os pacientes
ensaiam as situações sociais ansiogênicas
e põem em prática os novos comportamentos
sociais aprendidos.
Assim,
na presença do terapeuta, o paciente pode,
durante o ensaio, refutar cognições problemáticas,
perceber a relevância dessas cognições em
relação à ansiedade e esquiva, já que elas
virão à tona no momento do ensaio, em uma
situação "controlada", mas que serve
de treino para a vida real. Pode, ainda, enfatizar
o impacto da mudança dessas cognições ou até
mesmo a extinção delas para possibilitar respostas
comportamentais mais adaptativas. O grupo
é apontado como o melhor método de integrar
as parcelas cognitiva e comportamental, de
acordo com Heimberg et al. (1998).
Podemos,
portanto, afirmar com Dyck (1966) que o grupo,
por ser uma forma de exposição contínua a
uma situação social o próprio grupo, torna
mais fácil a execução de situações práticas
propostas, e o aspecto da supervisão pelo
terapeuta em "tempo real". Ainda,
segundo o autor, essas situações presenciadas
pelo terapeuta têm maior valor que aquelas
desempenhadas pelo paciente fora das sessões
e apenas relatadas ao terapeuta, no caso da
terapia individual. Finalmente, Dyck (1996)
aponta que esse formato de tratamento apresenta
uma relação custo-benefício melhor que o individual.
Por
todas essas considerações, concluímos que
o procedimento em grupo tem vantagens sobre
a terapia individual e que o treino de habilidades
sociais propicia repertório adequado à exposição,
trazendo ao paciente maior confiança para
enfrentar as situações sociais.
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1Doutora
em Psicologia pela USP - Psicóloga pesquisadora
e supervisora do AMBAN - Professora da Universidade
São Marcos.
2 Mestre em Psiquiatria pela FMUSP - Médico
pesquisador do Ambulatório de Ansiedade (AMBAN)
do Instituto de Psiquiatria do HCFMUSP. Ambulatório
de Ansiedade (AMBAN) - Instituto de Psiquiatria
do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina
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