ANSIEDADE
RELEVÂNCIA
DOS QUADROS ANSIOSOS NA PRÁTICA MÉDICA
Márcio
A. Bernik
Do ponto de
vista da saúde pública, a prevalência dos transtornos
mentais é similar à dos distúrbios cardiovasculares,
incluindo hipertensão (Freadman, 1983). Dos transtornos emocionais,
os transtornos de Ansiedade são os problemas psiquiátricos
mais freqüentemente vistos em serviços de atendimento primário
por clínicos gerais e os mais freqüentes na população
em geral.
O estudo mais
importante realizado nesta área, o "NIMH Epidemiologia Catchment
Area Study (ECA)", com mais 18.500 entrevistas a adultos residentes em
cinco comunidades, estimou a prevalência dos transtornos ansiosos
em 8,9% em seis meses ou 14,6% ao longo da vida; ou até 23% se incluídas
fobias simples. Mais ainda, os pacientes geralmente são jovens,
sofrem graves conseqüências sobre suas vidas pessoal e profissional
e, muitas vezes, não sabendo o que tem, não procuram ajuda
médica.
Embora estes
distúrbios estejam agrupados sob o rótulo de transtornos
de ansiedade, quadros clínicos diversos apresentam diferentes prognósticos
e respostas a terapêuticas específicas. Deste modo, é
importante a identificação de quais os principais grupos
de sintomas que aparecem no paciente para se estabelecer um diagnóstico
sindrômico. Os sintomas ansiosos foram agrupados em "clusters" clínicos,
ou seja, grupos de sintomas que ocorrem simultaneamente nos mesmos pacientes
(Klein, 1980). Alguns destes "clusters" são:
Ataque de
pânico: refere-se a uma onda súbita e incontrolável
de medo, que surge de maneira inexplicável e acompanhada de intensas
manifestações autonômicas. Deve ser diferenciado de
flutuações de intensidade em um estado de ansiedade relativamente
constante (ansiedade antecipatória).
Ansiedade
antecipatória (também chamada ansiedade tônica
ou livre-flutuante): neste quadro o paciente está apreensivo, continuamente
pensando sobre seus problemas cotidianos (ruminações ansiosas),
geralmente antecipando desfechos catastróficos.
Tensão
motora: compreende relatos do paciente sobre sentir-se trêmulo,
"bambo", tenso, com dores musculares (especialmente "dor na nuca"); também
sente-se facilmente fatigável e incapaz de relaxar. Pode ser acompanhado
de respiração ofegante devido a contração espástica
do diafragma (Klein, 1 980).
Hiperatividade
autonômica: inclui queixas de sudorese, mãos frias e úmidas,
boca seca, palpitações, tonturas, ruborização,
ondas de calor e frio, palidez, urgência miccional e diarréia
e, ao exame físico, aumento das freqüências cardíaca
e respiratória.
Hipervigilância:
a
expectativa ansiosa resulta em um estado de vigília aumentado, com
irritabilidade, impaciência, distraibilidade e, principalmente, dificuldade
para adormecer.
Evitação
fóbica: inclui procedimentos, situações, objetos
ou animais a serem evitados a qualquer custo, sob pena de sofrimento intenso.
Compulsões: atos motores ou mentais (pensamentos) com o objetivo
de diminuir a ansiedade causada por pensamento (ou imagens) obsessivos.
CLASSIFICAÇÃO
DOS TRANSTORNOS ANSIOSOS
Baseando-se
nestes "clusters" clínicos, a reformulação da nosologia
psiquiátrica adotada na terceira edição do manual
de estatística e diagnóstico da Associação
Psiquiátrica Americana, DSM-111 de 1980 e revisada em 1987 (DSM-IIIR;APA,1987),
procura narrar as síndromes clínicas (Tabela2) de maneira
descritiva e ateorética, tentando ao máximo abandonar postulados
teóricos de validade discutível nos quais estavam baseadas
as classificações anteriores (incluindo a atual versão
da CID). Assim, a DSM-111 de 1980 teve origem em trabalhos que desde a
década de 60 vinham tentando estabelecer uma tipologia descritiva
que, comparada com a classificação anteriormente em uso (neurose),
apresentava maior valor preditivo de prognóstico e resposta terapêutica
(Klein, 1964; 1967). Neste artigo procuraremos abordar aspectos atuais
da fisiopatologia e tratamento dos principais transtornos ansiosos, bem
como dos estados mistos - depressivo-ansiosos, categoria diagnóstica
que deverá ser incluída na nova CID X.
TABELA
1
Classificação
dos quadros de ansiedade, adaptados ao DSM-IIIR (APA-1987)
| Classificação |
Princípio
nosográfico |
| 1. Reação
de ajustamento com humor ansioso |
Reação
breve a evento vital estressante |
| 2. Transtorno
do Pânico |
Ansiedade
ictal |
| 3. Transtorno
do Pânico com Agorafobia |
Pânico+esquiva
de múltiplas situações públicas |
| 4. Agorafobia
sem ataques do pânico |
Geralmente
secundária a outras patologias |
| 5. Fobia Social |
Esquiva de
situações de exposição ao escrutínio
público |
| 6. Fobias
específicas |
Estímulo
fóbico circunscrito |
| 7. Transtorno
Obsessivo Compulsivo |
Pensamentos
ou imagens ansiogênicas (obsessões) e rituais ansiolíticos
(compulsões) |
| 8. Transtorno
de ansiedade generalizada |
Quadro crônico,
porém com sintomas similares a reação de ajustamento |
| 9. Transtornos
de estresse pós-traumático |
Quadro crônico
ligado a evento estressante extremo (ex. tortura) |
TABELA
2
Significado
de estudos de ataques de pânico precipitados
| Yoimbina |
Hipersensibilidade
noradrenérgica pós-sináptica |
| MCPP |
Hipersensibilidade
sirotoninérgica pós-sináptica |
| Lactato |
Sensibilidade
alterada e acidose metabólica |
| CO2 / hiperventilação |
Sensibilidade
anormal dos querinorreceptores medulares |
| Flumazenil |
Possível
alteração do shift point do receptor BDZ |
| Estimulação
elétrica do locus ceoruleus |
Reações
de pânico em animais (não é reproduzível em
humanos) implica no papel de LC nos ataques de pânico. |
TRANSTORNO DO PÂNICO
A característica
fundamental deste quadro é a recorrência de crises súbitas
de medo e ansiedade (ataques de pânico), não relacionadas
a patologia clínica que possa explicar os sintomas (exemplo: feocromocitoma)
ou o evento em que a reação seja justificável (grandes
catástrofes).
Essas crises
são sempre de início abrupto e raramente perduram por mais
do que 1 0 ou 30 minutos, embora uma sensação de cansaço
e desconforto possa se manter por horas. Apresenta-se como uma crise súbita
de medo intenso, sem causa aparente, embora o paciente refira medo de morrer,
ficar louco ou perder o controle. Sempre são acompanhados de intensas
manifestações autonômicas com: dispnéia ou sensação
de sufocação, tonturas ou vertigens, desequilíbrio,
pernas bambas ou moles, palpitações ou taquicardia, hipertensão
sistólica leve, sudorese, principalmente palmo-plantar, tremores
("trepidação interna"), ondas de frio ou calor, náuseas
ou vômitos, dores no peito, parestesias e, em alguns pacientes, urgência
miccional ou diarréia.
Uma revisão
recente sobre Transtorno do Pânico e Agorafobia foi publicada recentemente
(Bernik, 1991).
AGORAFOBIA
Trata-se da
evolução natural do quadro de pânico não tratado
e decorre ao nível de estresse causado pelas crises de pânico
aleatoriamente repetitivas. Neste estágio encontramos:
1.
ansiedade antecipatória, na expectativa da próxima crise;
2. aumento
na freqüência de crises e aparecimento de crises leves, com
poucos sintomas, provavelmente decorrentes do estado basal aumentado de
ansiedade;
3. procura
constante de ajuda médica;
4. aumento
de queixas somáticas diversas;
5. medo e
apreensão ao ter de enfrentar situações onde uma crise
de pânico possa ser: perigosa (exemplo: nadando), constrangedora
(exemplo: teatros) ou lugares onde a fuga possa ser difícil (inclui:
sair de casa só, enfrentar lugares com grande movimento de público
(cinemas, teatros, restaurantes, shopping centers), lugares fechados (salas
de aula, elevadores) e transportes públicos (ônibus, trens,
metrô);
6. sentimentos
de desesperança;
7. em um estágio
posterior, o paciente passa a evitar situações como as descritas
anteriormente, o que reduz a ansiedade antecipatória, porém
gera dependência, alteração na dinâmica familiar,
incapacitação social e vocacional e sentimento de desmoralização.
Nestes
pacientes, depressão e uso crônico de tranqüilizantes
são complicações freqüentes. A Agorafobia é
o quadro fóbico mais freqüentemente visto em serviços
especializados. Ainda hoje, a maioria dos pacientes procura tratamento
com um quadro agorafóbico já instalado.
TRANSTORNO OBSESSIVO COMPULSIVO
(TOC)
Embora venha
recebendo atenção crescente nos últimos anos, basicamente
devido ao desenvolvimento de técnicas eficazes de tratamento e a
um melhor atendimento de sua fisiopatologia, o TOC já era descrito
com detalhes desde o século passado.
Wespthal, em
uma palestra proferida na Sociedade de Medicina Psicológica de Berlim,
em 1977, fez a primeira descrição precisa de seu quadro clínico,
enfocando o aspecto compulsivo do comportamento dos pacientes. Seu prognóstico
sempre foi reconhecido como ruim e mesmo Freud, em 1925, colocava
o TOC como 'interessante para se analisar, porém um problema não
conquistado".
Caracteriza-se
por obsessões, ou seja, pensamentos ou imagens que vêm à
mente do paciente contra a sua vontade e aos quais o paciente tenta opor
resistência e; por compulsões, que são rituais explícitos
(motores ex, lavar as mãos) ou encobertos (cognitivos ex, rezar
um "Pai-nosso"), realizados voluntariamente pelo paciente com o objetivo
de reduzir a ansiedade ou o desconforto eliciados por conteúdos
ideativos obscenos.
Embora clinicamente
conhecida como uma patologia rara (prevalência 0,5%, Rudin, 1953),
sabe-se hoje que é muito mais prevalente do que anteriormente se
imaginava. No estudo NIMH/ECA encontraram uma prevalência ao longo
da vida de 2,9% (Karuo, 1988).
ESTADOS MISTOS DEPRESSIVO-ANSIOSOS
Quadros ansiosos
costumam ocorrer freqüentemente associados a depressão (Breier
et ai, 1984). Embora as categorias descritas na DSM-111 sejam boas preditoras
de prognóstico e resposta terapêutica, em muitos pacientes
a sobre-posição diagnóstica entre sintomas depressivos
e ansiosos dificulta esta distinção.
A comorbidade
(existência de duas patologias em um mesmo indivíduo) entre
ansiedade e depressão chega a ser inferior a 70% (Builer et al,
1986). Recentemente Andrade, Bernik, Gentil a cols. (no prelo) encontraram
87% de síndromas depressivas usando o 'Prevent state examination"
(Wing, 1974) em pacientes com TP.
Esta comorbidade
é muito maior que a suposta pela associação ao acaso
e tem sido atribuída a uma vulnerabilidade comum a ambas, ansiedade
e depressão nestes pacientes (Breier et al, 1985).
CORRELATOS FISIOLÓGICOS
E FISIOPATOLÓGICOS DA ANSIEDADE
O comportamento
emocional humano decorre da interação dos sistemas neurofisiológicos
envolvidos na elaboração de estados emocionais básicos
(como o medo) com diversos processos cognitivos mais complexos envolvendo
percepção, rememoraçâo de experiências
passadas e capacidade de julgamento no sentido de elaborar previsões
baseadas nestas experiências. Esta interação complexa
torna a experiência emocional humana infinitamente rica e variada.
Deste modo, é necessário um certo grau de reducionismo para
se entender as bases biológicas da ansiedade e dos transtornos ansiosos.
O modelo, detalhadamente
proposto por Gray (1982), define a ansiedade como um estado provocado pela
ativação do sistema comportamental inibitório e pressupõe
que as drogas ansiolíticas reduzem a atividade deste sistema. Baseia-se
na verificação de que existem muitas semelhanças comportamentais
entre os efeitos das drogas ansiolíticas e o efeito de lesões
das áreas septais e do hipocampo, em modelos animais de ansiedade.
Assim, outro pressuposto é que este modelo, baseado extensamente
em estudos animais, sejam também um modelo plausível de ansiedade
humana.
Gray propõe
que a principal função do sistema septo-hipocampal é
a de comparar estímulos reais, provenientes do ambiente, com previsões
de estímulos, previstos pelo córtex cíngulo.
A informação
sensorial ambientar entraria no sistema através do córtex
entorinal, localizado no lobo temporal. As predições seriam
geradas no circuito de Papez, baseadas nas memórias armazenadas
e o planejamento da intenção de movimento seria elaborado
pelo córtex pré-frontal. O sistema funcionaria em dois modos:
havendo similaridade entre os estímulos reais percebidos e as predições
geradas, o sistema funcionaria em um módulo de checagem e o comportamento
motor seria mantido.
Por outro lado,
ao detectar uma discordância entre os estímulos reais e os
previstos ou quando o estímulo previsto for aversivo, o sistema
septo-hipocampal muda de seu modo de checagem para o de controle, causando
a inibição comportamental. Assim seria eliciada uma reação
caracterizada pela inibição do comportamento em curso, aumento
da vigília e enfoque da atenção nas possíveis
ameaças do ambiente.
Além
da discrepância entre a entrada sensorial e o modelo da memória
(isto é novidade), estímulos ameaçadores, quer inatos
(predadores, por exemplo), quer aprendidos (sinais condicionados que predizem
perigo ou frustração), também ativariam o sistema
septo-hipocampal, provocando assim a reação de ansiedade
(inibição comportamental).
Do ponto de
vista fisiológico, os estímulos sensoriais ambientais chegam
ao sistema septo-hipocampal sob a forma de informações multimodais,
altamente processadas e provenientes de todo neo-córtex sensitivo,
e são transmitidas ao giro dentado e ao hipocampo pelo trato perfurante.
Neste circuito existiria uma espécie de "janela" entre as áreas
do giro dentado e a área CA3, onde a passagem elétrica pode
ser estimulada (potenciação) ou diminuída (habituação).
A habituação é uma característica intrínseca
à estrutura CA3: quando o animal é exposto a um mesmo estímulo
de modo repetitivo, o ritmo de disparo da região CA3 diminui com
o passar do tempo. A potenciação é um efeito das aferências
noradrenérgicas provenientes do locus coeruleus (LC) que aumentariam
a capacidade de hipocampo em lidar com informações originárias
do córtex entorinal, por aumentar a possibilidade de passagem da
informação sensorial para o circuito comparador do hipocampo.
As vias aferentes
serotonérgicas que inervam o sistema septo-hipocampal são
originárias do núcleo medial da rafe. Existem evidências
de que como o LC, as projeções do núcleo da rafe aumentam
a probabilidade de um estímulo atravessar a janela entre o giro
dentado e a área CA3. Outro efeito das aferências serotonérgicas
sobre o sistema hipocampal seria o papel de "campainha de alarme", aumentando
a probabilidade de um estímulo ser interpretado como potencialmente
perigoso pela unidade comparadora. Do ponto de vista neuroquímico,
a investigação direta da ação das drogas sobre
a ansiedade, verificando-se como elas regulam o disparo neuronal, como
atuam nos diversos receptores e na transmissão intracelular da informação,
levou ao postulado de que os principais sistemas envolvidos da regulação
neuro- química dos processos ansiosos são o gabaérgico,
o noradrenérgico e o serotonérgico.
SISTEMA GABAÉRGICO,
BENZODIAZEPÍNICOS E ANSIEDADE
A ação
ansiolítica dos benzodiazepí- nicos envolve um complexo macromolecular
que compreende o receptor de BDZ, o receptor de GABA e o ionóforo
de cloro. Quando o GABA é liberado, ela ativa um subtipo específico
de receptor GABAA, resultando na abertura dos canais e cloro e conseqüente
aumento do influxo de íons cloro. Acredita-se que o estado de hiperpolarização
resultante seja o mecanismo pelo qual o GABA produz seus efeitos inibitórios.
A interação dos BDZ com seus receptores aumenta a condutância
do cloro GABA, mediada devido ao aumento na freqüência de abertura
do ionóforo de cloro. O complexo receptor BDZ/receptor GABAA é
composto por pelo menos três subunidades: alfa, que, contém
o receptor BDZ; beta, que contém a subunidade GABA; e gama, que
permite a interação funcional entre os dois sítios
de ligação. A possibilidade de que o complexo macromolecular
receptor BDZ/receptor GABAA/ionóforo de cloro desempenhe um papel
importante nos mecanismos da ansiedade foi reforçada pela descoberta
de outros tipos de drogas (asbeta carbolinas) que têm efeitos em
receptores de BDZ exatamente opostos aos dos BDZ. Essas drogas reduzem
os efeitos inibitórios do GABA, causam sensação de
ansiedade do homem e alteram o comportamento animal numa direção
ansiogênica. A partir disso foram aventadas algumas hipóteses.
Ao receptor de BDZ deveria se ligar uma substância endógena,
com ações ansiolíticas ou ansiogênicas, que
em pacientes ansiosos estaria aumentada ou diminuída, respectivamente.
Entretanto, até o momento não foi identificada entre as várias
substâncias testadas a que possa ser definitivamente considerada
como ligante endógeno. Verificou-se ainda que os BDZ diminuem a
síntese e liberação da 5HT e essas evidências
levaram à hipótese de que a ação ansiolítica
dos BDZ seria devido à diminuição da atividade de
5HT. Uma revisão detalhada sobre as bases biológicas da ansiedade
pode ser vista em Gorensiein e Bernik (no prelo).
BASES NEUROQUÍMICAS
E FISIOPATOLÓGICAS DOS QUADROS ANSIOSOS
A literatura
psiquiátrica recente tem sugerido que os Transtornos de Ansiedade
estão associados a anormalidades biofisiológicas. As principais
linhas de evidência surgem de pesquisas genéticas que evidenciam
uma predisposição familiar (Crowe, 1983,1984) e da resposta
a tratamentos específicos, (Sheehan, 1982), do resultado de estudos
provocativos de ataques de pânico e de pesquisas recentes usando
técnicas recentes, como a tomografia por emissão de positrons
(Reiman, 1986).
Se todos os
indivíduos compartilham dos sistemas envolvidos na gênese
de estados emocionais básicos, as principais dimensões individuais
como personalidade, predisposição para quadros ansiosos ou
depressivos etc., devem corresponder a diferenças de funcionamento
de estruturas dentro destes sistemas em relação à
velocidade, tonus, limiar de excitação etc.
Em concordância
com este ponto de vista estão os dados sobre genética de
quadros ansiosos, revistos por Crowe (1984) e Murray (1987), apontando
para o fato que fatores genéticos contribuem com até 50%
da vulnerabilidade individual, o restante devendo-se a múltiplos
f atores ambientais distribuidos de forma randômica na população.
PSICOBIOLOGIA DO TRANSTORNO
DO PÂNICO
O transtorno
do pânico é a única patologia psiquiátrica cujos
sintomas podem ser reproduzidos em laboratório (Crowe & Noyes,
1986), através de vários agentes panicogênicos como,
lactato de sódio, isoproterenol, cafeína, norepinefrina,
ioimbina e CO, (Tabela 2). Os principais modelos biológicos do transtorno
do pânico são:
-
Locus Coeruleus
LC e o modelo de hiperatividade noradrenérgica
O Locus Coeruleus
é um pequeno núcleo localizado na ponte. Apesar disto, nesta
estrutura estão contidos mais de 90% de todos os corpos neuronais
produtores de NA do SNC. A estimulação do LC em animais é
capaz de levar a reações de alarme e pânico (Redmond,
1976), mais ainda, animais com lesões bilaterais nestas estruturas
são incapazes de mostrar reações comportamentais adequadas
a estímulos associados a perigo eminente (Snyder et al, 1977).
Os corpos neuronais
do LC são inibidos pré-sinapticamente por benzodiazepínicos,
opiáceos, GABA, serotonina e agonistas alfa-2-adrenérgicos
como a clonidina, substâncias estas com ação antipânico.
Os antidepressivos tricíclicos, como a imipramina e a clomipramina,
as drogas mais úteis no tratamento do Transtorno do pânico,
também diminuem o ritmo de disparo do LC.
-
Núcleo
Medial da Rafe (NMR) e o modelo de supersensibilidade serotonérgica
A serotonina
é o principal neurotransmissor do NMR, uma estrutura pequena, localizada
no tronco cerebral que como o LC apresenta referências ascendentes
amplas e difusas.
Agonistas serotonérgicos
pós-sinápticos, como a Mclorofenilpiperazina, são
capazes de produzir ataques de pânico em pacientes com pânico
em pequenas doses e, em doses muito maiores, também em indivíduos
normais. Estes dados apontam para uma supersensibilidade dos receptores
5HT no transtorno do pânico.
Corroborando
esta hipótese está o padrão de resposta clínica
destes pacientes com medicamentos que inibem a recaptura de serotonina,
como a clomipramina e a fluoxetina, que, aumentando a biodisponibilidade
de 5HT, apresentam um padrão de resposta bifásico, com piora
inicial dos sintomas, seguida de melhora terapêutica após
aproximadamente 14 dias, tempo necessário para ocorrer a dessensibilização
"down regulation" dos receptores pós-sinápticos.
-
Modelo de disfunção
gabaérgica e alteração do ponto de equilíbrio
do receptor benzodiazepínico
Uma possibilidade
recentemente estudada é que uma anormalidade no funcionamento do
receptor de BDZ mediaria a patofisiologia de algumas formas de ansiedade
humana. Estas hipóteses foram principalmente testadas em experimentos
recentes com o flumazenil (antagonistas de BDZ). Woods e cols. (1991) administraram
flumazenil a pacientes com TP e voluntários normais, não
medicados. Os autores sugerem que, como o flumazenil não reduziu
a ansiedade basal dos pacientes, o TP não seria caracterizado por
uma interação tonicamente aumentada dos receptores de BDZ
com um ligante endógenó putativo com propriedades agonistas
inversas. A indução de ataques de pânico foi observada
em quatro dos dez pacientes e em nenhum indivíduo normal. A indução
de crises de pânico também foi observada quando da administração
de flumazenil a usuários crônicos de doses terapêuticas
de BDZ, apenas nos pacientes com história de ataques de pânico
(Bernik e cols., 1991).
Resultados
semelhantes aos de Woods e cols. (1991) foram encontrados por Nutt e cols.
(1990), isto é, indução de ataques de pânico
em oito de dez pacientes com TP e nenhum em controle normal. Estes achados
foram interpretados como urna alteração no funcionamento
do receptor de BDZ, que funcionaria preferencialmente em uma conformação
que facilitaria a ligação dos agonistas inversos ("shift
point"). Assim, o flumazenil ao invés de atuar como antagonista
agiria como agonista inverso. Essa alteração no receptor
produziria um estado crônico de subatividade da inibição
GABA érgica nesses pacientes e também explicaria porque a
ação de agonistas BDZ estaria diminuída, necessitando-se
de doses de benzodiazepinicos superiores às habituais no tratamento
do TP.
FISIOPATOLOGIA DO
TRANSTORNO OBSESSIVO COMPULSIVO
Diversas linhas
de evidência sugerem a participação de disfunções
dos gânglios da base na fisiopatologia do Transtorno Obsessivo Compulsivo
(TOC). Em 1885, Gilles de la Tourette descreveu uma síndrome na
qual tics recorrentes, motores e vocais se associavam a pensamentos obsessivos
e comportamentos ritualísticos estereotipados.
Von Economo,
em 1917, descreveu quadro pós-encefalíticos, onde lesões
envolvendo os gânglios da base estavam associados com alterações
motoras e "sensações de compulsões" similares as dos
pacientes com TOC.
Sintomas OC
são comuns também em pacientes com história de coréia
de Sydenham, que se caracteriza por infiltração celular perivascular
e degeneração neuronal, especialmente no núcleo estriado.
Estudos recentes,
utilizando técnicas mais sofisticadas, também têm ligado
distúrbio OC com disfunçôes dos gânglios da base.
Medidas volumétricas dos núcleos da base, através
da tomografia computadorizada, mostraram uma diminuição bilateral
no volume do núcleo caudado em pacientes com TOC em comparação
com controles normais (Swedo & Rapopport, 1991).
Em termos neurofisiológicos,
a própria organização da rede de estruturas conhecida
como gânglios da base tem sido reconceitualizada, propondo-se modelos
mais complexos do que apenas o de um balanço entre estruturas colinérgicas
e dopaminérgicas. Os gânglios da base parecem cada vez menos
como simples relés motores e mais como um circuito paralelo complexo
para filtrar sinais sensoriais, tais como aferências corticais que
são ampliadas e enviadas via tálamo ao córtex motor
e associativo.
Este sistema
coordena operações complexas, como memória e movimentos,
porém não as executa diretamente. Assim, patologias em diferentes
partes do estriado podem produzir alterações emocionais,
sensoriais, motoras ou cognitivas na dependência das funções
das áreas corticais a ele conectadas.
Verificou-se
também que as aferências serotonérgicas sobre os gânglios
da base são inadequadas em pacientes com TOC. Como resultado, ocorre
controle inapropriado sobre o globo pálido e o tálamo torna-se
desinibido, gerando comandos motores que seriam dados repetidamente.
TRATAMENTO DOS TRANSTORNOS
ANSIOSOS
Tratamento
do Transtorno do Pânico
O tratamento
das crises súbitas de ansiedade, ataques de pânico são
classicamente realizados com doses próximas as antidepressivas (75-150
mg/dia) de antidepressivos tricíclicos, como a imipramina (Klein,
1980).
Mais recentemente
tem sido proposto o uso de doses subantidepressivas (10 - 50 mg/dia) de
antidepressivos tricíclicos com perfil predominantemente serotonérgico,
como a clomipramina (Gentil, 1988).
Outras drogas
que vêm sendo usadas no tratamento do pânico são o agonista
alfa-2 clonidina e iníbidores específicos da recaptura pró-sináptica
de serotonina como a fluoxetina. O alprazolam em doses elevadas tem também
sido usado com muito sucesso no controle dos ataques de pânico e
da ansiedade antecipatória.
A Agorafobia
já instalada pode ter curso próprio independente dos ataques
de pânico e necessitar de técnicas de intervenção
psicoterápica. A única técnica com eficácia
comprovável é a terapia de modificação do comportamento
(um conjunto de técnicas baseadas na teoria do aprendizado) que
são, sem dúvida, as intervenções psicoterápicas
de escolha, por exemplo, no tratamento de diversos distúrbios ansiosos
como as fobias e o transtorno obsessivo compulsivo.
Especialmente
eficazes são as técnicas de exposição gradual
aos estímulos fóbicos, em fantasia e "in vivo" (Marks, 1983).
O prognóstico dos pacientes que fazem uso de tratamento medicamentoso
e terapia comportamental é excelente e a melhora duradoura.
TABELA
3
Inibição
in vitro da recaptura de monoaminas em tecido cerebral por diversos agentes
(Baldenarmi, 1985)
|
Agentes
|
Potência
(IC50,MM)
|
Razão
NA/5HT
|
|
Nor Adrenalina
|
Serotonina
|
Dopamina
|
| Desipramina |
1.2
|
1100
|
9000
|
916
|
| Imipramina |
30
|
260
|
16000
|
9
|
| Amitriptilina |
50
|
70
|
5800
|
3
|
| *Clomipramina |
60
|
16
|
5000
|
0.3
|
| Maprotilina |
14
|
13500
|
9300
|
960
|
| *Fluoxetina |
740
|
6.9
|
12000
|
0.009
|
*Agentes preferencialmente
serotonérgicos
Tratamento do Transtorno
Obsessivo Compulsivo
Ao contrário
do TP, onde são descritas respostas terapêuticas favoráveis
com diversos antidepressivos tricíclicos e mesmo benzodiazepínicos,
o TOC foi sempre considerado uma patologia com pobre resposta farmacológica.
Esta situação se reverteu com a introdução
de antidepressivos com especificidade maior para recaptura de serotonina
(vide Tabela 3).
Destas, a mais
estudada é a clomípramina, que em mais de 12 ensaios clínicos
mostrou-se superior ao placebo e a outros antidepressivos tricíclicos
e heterocíclicos (revistos por Rapopport, 1988).
Porém,
para a maioria dos pacientes, o tratamento ideal é uma combinação
do tratamento farmacológico com a terapia comportamental, uma vez
que sem esta, a recidiva pós-interrupção da medicação
é muito alta.
Tratamento dos Quadros
Mistos Depressivo-Ansiosos
Em relação
à resposta terapêutica dos quadros mistos depressivo-ansiosos
é importante tentar diferenciar dois quadros clínicos:
um se refere a depressões graves, que geralmente ocorrem em idosos,
de prognóstico ruim e cuja principal manifestação
clínica é a agitação; este quadro, conhecido
como depressão agitada ou depressão involutiva não
será comentado neste artigo.
A grande maioria,
porém, dos quadros com sintomatologia mista, depressivo-ansiosa
se refere a quadros leves, anteriormente classificados como "depressões
neuróticas" ou "reativas". Nestes pacientes tem sido descrita melhora
com diversos agentes: benzodiazapínicos (principalmente o alprazolam),
anti-depressivos triciclicos (clomipramina e amitriptilina) e inibidores
da MAO.
CONCLUSÕES
Embora os quadros
ansiosos possam (e devido a sua prevalência devem) ser convenientemente
tratados em sistemas de saúde primário e/ou por generalistas,
algumas situações específicas provavelmente se beneficiem
de encaminhamento ou avaliação por especialistas (segundo
manual recente da Associação Médica americana).
1
. Em pacientes com uma ou mais queixas orgânicas relacionadas a distúrbios
outros como asma, insuficiência coronariana etc., a consulta psiquiátrica
pode ajudar a confirmar o diagnóstico e delinear os diferentes grupos
de sintomas.
2. Um pequeno
número de pacientes pode ser resistente aos tratamentos farmacológicos
convencionais.
3. Pacientes
com pânico ou transtorno obsessivo geralmente apresentam sintomas
depressivos. Quando estes forem moderados ou graves, ou ainda, se existir
ideação suicida, a indicação de tratamento
é necessária.
4. A nosografia
psiquiátrica ainda é sindrômica e muitos pacientes
apresentam quadros confusos com sintomas de depressão maior, abuso
de álcool ou drogas e mesmo sintomas psicóticos.
5. Pacientes
com Agorafobia moderada ou grave e no transtorno obsessivo compulsivo é
indicada a terapia de modificação do comportamento, de modo
a permitir ao paciente retomar suas atividades cotidianas.
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